Quinta-feira, 09.06.11

Parece uma outra vida. Há vinte e cinco anos, em Junho de 86, publiquei o meu primeiro livro de poemas, Onde o olhar.  Edição de autor, ou quase. A Indício era uma associação cultural que fundei com uns amigos. Os poemas eram uma colecção de textos que vinha a escrever e reescrever desde os meus 17 ou 18 anos, e o livro, para além das influências óbvias e menos óbvias, estava cheio de ligações e organizado de forma a que os poemas pudessem ser lidos individualmente ou em sequência. Isto, claro, achava eu.

O grafismo do livro era para ser inspirado numa colecção da Difel daquele tempo mas acabou, por ingenuidade gráfica e descuido, por ser mesmo copiado. A verdade é que, de tão obcecado que estava com as palavras, as vírgulas, as sequências e os seus múltiplos sentdos, só me apercebi disso quando tinha o livro na mão.

Foi uma edição integralmente paga com o meu primeiro ordenado como professor de liceu. E fui eu que distribuí o livro à consignação de livraria em livraria. E como era tradição nas edições de autor na Feira do Livro de Lisboa lá estive, nesse Verão, a vendê-lo sentado no chão, junto a outros autores.

É tradição envergonharmo-nos ou mesmo renegarmos os nossos primeiros livros. No meu caso não tenho vergonha nenhuma. Não porque ache que era muito bom, mas muito simplesmente porque é o meu primeiro livro. Parece uma outra vida.

 

 

 


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Nuno Artur Silva às 00:20 | link do post

 

(clique na capa para fazer download de um excerto do livro)


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Nuno Artur Silva às 00:18 | link do post | comentar

Sexta-feira, 01.04.11

Depoimento para a rubrica "Não vale dizer filhos" do programa "Histórias Devidas" (Canal Q).

 


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Quarta-feira, 30.03.11

O Benjamim fez quinze anos. 

 

 

"Bom dia Benjamim" começou por ser um CD e um livro com um conjunto de canções que contavam a história de um dia da vida do Benjamim, um rapaz de seis anos, desde que acordava até que, de novo, se deitava. As canções e os pequenos diálogos entre elas reflectiam o universo real e fantasioso da vida das crianças daquela idade, desde a relação com os pais, a ida para a escola, os amigos, até aos sonhos e pesadelos, a morte do gato ou o mistério do Tempo. O passo seguinte foi fazer uma peça de teatro que estreou no CCB em 98, no âmbito do Festival dos 100 dias. O tempo passou mas para toda a equipa envolvida o sentimento foi unânime: este foi um projecto que marcou as nossas vidas. Não só profissionalmente mas sobretudo de forma pessoal, pelo que ele significou para cada um de nós. Foi um encontro feliz de pessoas de muitas áreas, que resultou numa memória gratificante para todos os que o fizeram. 

 

 

 

A ideia começou por ser do José Peixoto, que compôs uma canção para oferecer à sua filha Joana quando ela fez seis anos. O José desafiou o Paulo Curado para compor outras canções com ele e desafiou-me a mim para escrever as letras. Eu baptizei o rapaz e convidei o Miguel Viterbo e o Rui Cardoso Martins para escreverem comigo as letras e as pequenas histórias. Depois juntaram-se o João Paulo Esteves da Silva, para compor canções, e o José Salgueiro para também compor e produzir.

 

 

 

A Maria João foi a voz cantada do Benjamim e a Teresa Sobral a voz do Benjamim nos diálogos. Cláudia Cadima foi a mãe, Carlos Paulo foi o pai e Ana Brandão, o amigo André. A direcção musical foi do José Mário Branco e a sonoplastia e montagem do João Pedro de Castro. 

O boneco do Benjamim e toda a ilustração foram da autoria da Cristina Sampaio, e o design do álbum e do livro do Vasco Colombo.

Na peça de teatro o Benjamim (Teresa Sobral) tinha dois amigos imaginários: o Assim e o Assado, que diziam como é que as coisas eram. Um era o Marco Horácio e o outro o Miguel Andrade. A encenação era do António Feio.

 

 

 

Com os quinze anos veio a óptima e inesperada notícia de uma reposição da peça, numa nova versão, no CCB, em 2012. 

A possibilidade de o voltarmos a fazer é um regresso a um sítio onde somos felizes.


Aqui ficam as músicas cujas letras são da minha autoria. 

 


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Nuno Artur Silva às 14:12 | link do post | comentar | ver comentários (1)

Quarta-feira, 03.11.10

O Joaquim Letria foi convidado esta semana do programa Show Markl, no nosso Canal Q. Por causa disso descobri, por coincidência, que fez exactamente nessa semana 20 anos que eu me estreei como autor de sketches de humor para televisão. O programa chamava-se exactamente Joaquim Letria, passava na RTP 2, às quartas-feiras, era produzido pelo José Nuno Martins, pelo Thilo Krassman, pelo Fialho Gouveia e pelo Vitor Mamede, nos estúdios Edipim. O realizador era o António Carlos Rebesco, mais conhecido como Pipoca. A dupla que me convidou para escrever (na sequência de uma sugestão do José Nuno Martins) não podia ser melhor: José Pedro Gomes e Miguel Guilherme. O Miguel acabaria por sair ao fim de dois meses e picos, para fazer um filme, e foi substituído pelo António Feio, com quem o Zé Pedro só tinha trabalhado uma vez, num programa com outros actores (Clubíssimo), mas com quem o Zé Pedro me dizia ter a sensação de poder vir a fazer uma grande dupla. Recupero aqui, de umas gravações caseiras em VHS, os primeiros sketches que fiz para eles e para televisão. Como por exemplo, esta entrevista a um ponto chamado Rebuçado.

 

(http://videos.sapo.pt/2fBVW6bnChpEcltvtisR)

 

Jornal da Quarta

 

(http://videos.sapo.pt/VeiuoBZoOdPzIYoyMVDO)

 

O formato de jornal foi, claro, desde a primeira hora, um formato irresistível, o equivalente, em humor, àquelas figuras da ginástica obrigatória. Aqui decidimos chamar ao pivot Fernão Capelo Gaivota, não me perguntem porquê.

 

Entrevista ao inventor do comando de emoções

 

(http://videos.sapo.pt/grCVHHZ6ZaTEFms8jdek)

 

Curiosamente a ideia de um comando de pessoas (ok, com variações) viria a dar um blockbuster com o Adam Sandler uns anos depois. Devia ter registado, estes americanos estão-me sempre a roubar ideias...

 

Tempo de Antena das Minorias

 

 

(http://videos.sapo.pt/uLE6AQcVQGsrhg0EaS6o)

 

 

 

(http://videos.sapo.pt/ZqPazlZGw6jUhMJGs4Sy)

 

Este foi o formato com que o António Feio se estreou em dupla com o Zé Pedro, para nunca mais se separarem. Um dos mais estimulantes casamentos artísticos do teatro e do humor em Portugal. Foi um privilégio ter sido o padrinho.

 

Toino, cantor pimba minimalista

 

 

 

(http://videos.sapo.pt/7oIiSzP2l5JZbCSfJAgB)

 

Lembro-me que este Toino e o seu agente T.S. Meireles nos deram particular gozo. Reparem, por outro lado, como tudo isto era feito com público ao vivo em mesas, orquestra e gravação live on tape. O visual e o estilo da época, só por si, acabam por vezes por ter mais graça que os sketches. Isto vai voltar a acontecer daqui a 20 anos quando olharmos para o nosso trabalho de hoje.

 

Jornal da Quarta

 

 

 

(http://videos.sapo.pt/rOwzUstBvHmWrg9tJMrt)

 

Aqui, um novo Jornal da Quarta, já com António Feio.

 

Lembras-te?

 

 

 

(http://videos.sapo.pt/B4ss3uQIVCOGkTeeVBmQ)

 

A fechar, este sketch já gravado no início de 1991, cheio de fumo de cigarros e nostalgia. Um de que o António gostava particularmente, aliás acho que era um dos nossos preferidos, do Zé Pedro e meu também.

 

20 anos.


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Nuno Artur Silva às 13:52 | link do post

Segunda-feira, 13.09.10


(Clique na imagem para fazer download do PDF).


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Nuno Artur Silva às 11:28 | link do post

Domingo, 01.08.10

As ideias, as histórias, as pessoas, as relações entre as pessoas. A Língua Portuguesa, Portugal e o Brasil. A televisão, o cinema, os livros. A poesia. A politica. As cidades. O futuro. O presente. O que passa. E o que fica do que passa.

Em quase dois anos de crónicas estes têm sido os meus temas, as minhas tags. Hoje despeço-me como um músico que termina uma digressão com um medley. Boa noite Lisboa!

 

“O grande lance é fazer romance”

 

Só nos apaixonamos pelas cidades onde nos apaixonamos.

Quando falamos de cidades falamos de habitação, trânsito, ordenamento do território, etc, e pensamos em realidades físicas. Mas, mais que uma realidade física, uma cidade é uma realidade mental. Como o amor, “una cosa mentale”. Uma cidade é um livro onde todos os dias se escrevem novas histórias.  Romances.

Passear ou vaguear numa cidade é vaguear pelas histórias que fazem a História dessa cidade. Quanto mais histórias mais mítica é a cidade. Quanto mais mítica, mais real é.

 

Estamos sempre perdidos na tradução do mundo em que vivíamos para o mundo onde estamos sempre a começar a viver. O que nos pode salvar é - agora como sempre - a ficção.

 

A produção de ficção na televisão portuguesa, no conjunto dos seus canais generalistas e de cabo é, com honrosas excepções, um deserto de ideias e de formas, um lugar onde não há espaço para se desenvolverem narrativas para além das monocórdicas telenovelas.

É um extraordinário desperdício de recursos e talento, geração após geração, num meio, a televisão, que devia ser o palco privilegiado para a existência de uma cultura narrativa forte e diversificada. Agora que a televisão se reinventa no contexto da internet e da multiplicação de écrãs, é tempo de mudar os modelos organizacionais dominantes, que têm contribuído para esta situação de estagnação, e investir a sério, com estratégia e de forma planificada, na criatividade. Só a criação de ficções originais pode originar um verdadeiro património audiovisual nacional.

 

Privatizar a RTP é um erro quase tão grande como não mudar radicalmente a RTP.

Não pode haver política da Língua sem uma política para o audiovisual. E não pode haver uma política para o audiovisual sem que a RTP faça parte dessa estratégia.

A rede de canais é muito importante mas mais importante é a estratégia de produção, co-produção ou promoção de conteúdos. Ou seja, o fundamental no futuro não é tanto o canal em que vamos ver determinado conteúdo, mas o conteúdo em si. E programar no futuro próximo não será tanto alinhar uma sequência de programas em fluxo num horário e num canal, mas muito mais pensar na sua articulação mais aberta, na sua relação múltipla com outros conteúdos não só desse canal mas da rede de que ele faça parte e doutras redes.

 

Neste contexto de mudança é preciso mudar a RTP para que ela tenha um desígnio maior, para que, com a sua rede de canais multimédia, ela seja o motor de uma nova vitalidade audiovisual da cultura portuguesa. E sim, isto é mais importante do que o aeroporto,  a terceira ponte e o TGV. A RTP é mais importante que o TGV

 

“Primeiro encontramos, depois procuramos” dizia Picasso, pintor espanhol e do mundo. Nós, portugueses, primeiro encontrámos o Brasil. Falta agora, mais de quinhentos anos depois, procurá-lo.

E a terra nova que achávamos era, para além da terra real, a nova Língua Portuguesa, pátria que Pessoa haveria de proclamar séculos depois. E Caetano de cantar, roçando a sua língua na língua de Luís de Camões. E perguntando: “o que quer, o que pode esta língua?”, e respondendo “Livros, discos, vídeos à mancheia / E deixa que digam, que pensem, que falem”.

Só na poesia nos encontramos, no esplendor da Língua que é a Literatura, nossa única pátria. “Falta cumprir-se Portugal” dizia Pessoa na “Mensagem”. Esse Quinto Império mítico é o do sonho e da música da  Literatura em Língua Portuguesa, hoje disseminada por todo o mundo em “livros, discos, vídeos à mancheia”. O futuro de Portugal é a mistura, a mestiçagem e a vadiagem da língua portuguesa pelo mundo. O futuro de Portugal é o Brasil.

O acordo ortográfico é útil e inútil porque inevitável. Se não formos com o Brasil para o mundo ficaremos mirandeses e o nosso português ficará o mirandês do português.

Se há um desígnio para a CPLP é a criação de uma verdadeira comunidade cultural. A revolução da internet definindo um novo território imaterial traz consigo a oportunidade para a criação dessa comunidade.

É tempo de procurar  o Brasil. É tempo do Brasil nos descobrir.

 

Vivemos fascinados com o mundo de possibilidades à nossa frente, como jogadores viciados no tudo ou nada da roleta. Porque o que é fascinante é saber que tudo muda a cada instante, que um cisne negro quem sabe esvoaçará no lago, que a próxima esquina que virarmos pode-nos fazer encontrar o que já não procurávamos, que o acaso continua a jogar aos dados e a escrever o destino, que “o destino é a inteligência secreta do acaso”, como dizia René Char, que “o destino passa (...) como uma pluma caprichosa / passa pelos olhos de um gato”, como dizia Alexandre O’Neill.

Passo o tempo a imaginar o futuro mas a única coisa que conta, a única coisa que vai contar, é como é que nesse tempo vai ser o meu passado.

 

Termino agradecendo ao Económico o convite para a escrita destes quase dois anos de crónicas e,  pessoalmente, ao António Costa e à Isabel Lucas, pelo convite e pela atenção. Boas férias.

 

Crónica publicada no Económico no dia 31 de Julho de 2010.



Nuno Artur Silva às 12:43 | link do post

Terça-feira, 27.07.10

“Boa noite, este é o canal de notícias fáceis (...) Trazemos-lhe todas as notícias que são fáceis de arranjar (...) Pessoas noutros países querem matar-nos. O resto do artigo está cheio de nomes que não consigo pronunciar (...) Assim, a segunda peça: um debate entre dois brancos de meia idade que também não sabem por que razão pessoas nos querem matar. (Homem 1: Eles odeiam-nos porque nós somos tão espectaculares. Homem 2: Comprem o meu livro ou morrerão todos). A seguir no canal das notícias falsas, os nossos comentadores discutirão sobre varas tortas que ficam encravadas em chaminés. Excelente.” Escolhi esta (longuíssima) citação, no fundo uma transcrição, de uma tira de banda desenhada do Dilbert de Scott Adams, porque ela resume de forma perfeita o que sinto em dias como os de hoje, quando vejo o pais na televisão (ou o pais da televisão). Tudo parece normal mas é como se eu procurasse outro ângulo de visão do televisor a partir do sofá da sala e, tal como nos filmes de ficção científica, as personagens reais daquele ângulo se transformassem nos cromos Dilbertianos. As comparações, metáforas ou analogias são figuras que nos fazem perceber o sentido das coisas com uma força e uma intensidade que a linguagem mais literal e não figurada não tem. Uma boa história ou uma frase inspirada iluminam uma situação com uma luz que acrescenta verdade à constatação dos factos. Gosto de recortar e coleccionar frases ou cartoons e tiras de banda desenhada. São como versos de poemas que cito não pela sua beleza ou profundidade, antes pela sua graça e demolidora desmontagem da convenção. Há um desenho de um dos meus cartoonistas favoritos, Gary Larson, que de uma forma sintética é um tratado sobre as relações no local de trabalho: num escritório dois tipos frente a frente em duas secretárias absolutamente iguais. Um diz para o outro: “Um dia esse lugar há-de ser meu”. Ou sobre o mundo dos blogues e da opinião, aquele cartoon publicado na New Yorker, assinado por Gregory, em que um cão diz para o outro: “Eu tive o meu próprio blogue por um tempo mas agora decidi voltar só a ladrar incessantemente e sem sentido”. Por vezes é a própria realidade que nos surge em versão já metafórica e cartoonada, como era o caso do inesquecível ministro da propaganda iraniana que repetia a frase “I now inform you you’re too far from reality”. É claro que é sempre uma questão de gosto e de idiossincrasia. Cada um de nós colecciona os cromos de que gosta mais, e sobre gosto pessoal, por exemplo, uma das minhas citações favoritas é a do critico de televisão que, sobre os comediantes populares Abott e Costello dizia: “essa parelha de comediantes que não faz rir ninguém. A não ser o público”. Ou, ainda sobre os críticos, o genial Oscar Wilde que no “The critic as artist” dizia: “Ah, não me diga que concorda comigo! Quando as pessoas concordam comigo tenho sempre a impressão que estou errado”. Um dos melhores fraseadores vivos – e certamente, quando morrer, um dos maiores fraseadores mortos – é, claro, Woody Allen. Uma das suas mais citadas frases é, parafraseio, aquela em que ele diz que não percebe porque se critica a masturbação, afinal é fazer sexo com a pessoa de quem mais gostamos na vida. O mestre reconhecido e louvado por Allen era Groucho Marx. No filme “Annie Hall”, Woody Allen utiliza um frase de Marx como uma metáfora para o seu problema nas relações amorosas: “Nunca pertenceria a um clube que me aceitasse como sócio”. Há uma frase de Groucho Marx de que eu me lembro sempre quando convivo com determinadas personagens do nosso mundo televisivo: “Já chega de falar de mim, vamos falar de ti. O que é que pensas de mim?”.



Nuno Artur Silva às 09:38 | link do post

Segunda-feira, 19.07.10

As coisas que só acontecem uma vez podem durar toda a vida. O que é fascinante é sabermos que nunca poderemos saber, de todas as coisas que só nos acontecem uma vez, as que vamos reter para sempre. Podemos esquecer o dia em que encontrámos a pessoa mais importante da nossa vida adulta e, no entanto, lembrarmo-nos de um dia anónimo em que com essa pessoa não fizemos nada de especial.

"A vida é a arte do encontro" dizia, cantando, Vinicius de Moraes, acrescentando "embora haja tanto desencontro nessa vida". A vida não é devidamente valorizada como arte do encontro. Investimos muito de nós e do nosso tempo em coisas completamente estúpidas que não nos são decisivas ou sequer inspiradoras. E não perdemos tempo para nos dedicarmos à arte de nos encontrarmos com os outros.

Em 1989 escrevi, a meias com o Luís Miguel Viterbo, um livrinho, na verdade um pequeno ensaio/manifesto, que a &etc editou, sobre, precisamente, essa arte dos relacionamentos a que demos o nome de "A Elaboração dos Acasos".

O acaso é o acaso do encontro. Ou, se acreditarmos que o acaso é, como dizia Paul Valery ,"a inteligência secreta do destino", voilà,  o destino. Destino não quer dizer que tudo já esteja escrito mas sim que a nossa vida se escreve, como um romance. E partindo do princípio que somos ficção, o nosso encontro com as personagens que podem valer a pena na nossa vida "é uma disciplina artística a apurar dia a dia; é um exercício de depuração e elaboração, um exercício de estilo. Um jogo de distâncias (...) Uma ficção, irremediavelmente verdadeira e real".

E não é só nas relações mais pessoais que deveríamos elaborar a arte do encontro. Naquilo que as relações profissionais têm de pessoais, no tempo que passamos uns com os outros quando trabalhamos juntos, por vezes mais tempo do que com aqueles que escolhemos passar o nosso tempo, deveríamos investir a nossa sensibilidade e criatividade, para tirar dele, tempo, e delas, pessoas, o melhor.

No meio do meu trabalho, que tem sido essencialmente nos últimos 30 anos um trabalho criativo com equipas efémeras, não me canso de dizer que o facto de estarmos juntos naquela circunstância, aquele conjunto de pessoas, poderá não se repetir. E que, portanto, o que quer que aquele grupo tenha para dar em conjunto que possa ser mais do que a soma das partes, tem que acontecer nesse agora.

Para mim cada trabalho novo: uma série de televisão, um livro a meias, uma peça de teatro, um filme... é como um grupo de músicos jazz que se encontra para tocar junto, numa dada circunstância que não se repetirá. É preciso procurar o máximo, a melhor música e a melhor contracena, que esse grupo de pessoas seja capaz de dar.

Isto soa como uma verdade luminosa na pele dos performers, músicos, dançarinos, actores, mas acaba por ser sempre verdade, alargado aos performers do fundo do conteúdo que são os inventores de ideias, os escritores quando abrem o seu trabalho à actuação de outros.

A beleza do trabalho colectivo não está unicamente no resultado múltiplo, variado e complexo, ela pode estar nas memórias que esse trabalho deixa nas nossas vidas individuais, como espectadores também, mas sobretudo como parte desses colectivos.

Aconteceu-me participar em inúmeros trabalhos colectivos, de diversas maneiras, como escritor, autor da ideia, coordenador, actor, director de actores, participante, figurante, director, etc. Recordo aqui um que está longe de ser, no seu resultado final, uma das melhores coisas que fiz. Mas foi um dos que mais gratas memórias me deixou, a mim e a várias pessoas que nele participaram como intervenientes ou visitantes (e não será isto o resultado final?). Foram os "Nocturnos", há quase 20 anos,  músicos, actores e bailarinos pelo Jardim Botânico, quadros vivos de uma exposição musical e poética que as pessoas seguiam guiadas por lanternas, nas noites quentes de Verão. Não tínhamos dinheiro para a produção e houve mil e um problemas técnicos. Mas aquele nocturno e quase secreto jardim  no coração de Lisboa foi nesse  momento um lugar de encontros.

 

Crónica publicada no Económico no dia 17 de Julho de 2010.



Nuno Artur Silva às 11:00 | link do post

Segunda-feira, 12.07.10

Adoro televisão. Desde que me lembro de mim que me lembro das noites da minha infância na sala da casa dos meus pais, em frente a um televisor com ecrã minúsculo encastrado num pequeno móvel com porta de mini-bar. Ainda hoje o conservo em minha casa, como uma relíquia, a caixa realmente mágica de onde saíam a preto e branco os desenhos animados, as séries, os filmes, os festivais da canção, a chegada do Homem à lua, o 25 de Abril... Estávamos no fim dos anos 60-início dos anos 70 e havia um único canal, a RTP única e tutelada pelo velho Estado Novo. Mas foi nela que eu vi pela primeira, e muitas vezes única vez coisas que nunca mais saíram da memória da minha imaginação e que me inspiraram e me fizeram ser o que sou hoje. O televisor era a lareira à frente da qual a família se reunia e unia na partilha das histórias que dele emanavam. Nessa altura a emissão era só à noite e terminava com o hino nacional, por volta da meia-noite. Só mais tarde começaram as emissões à hora de almoço, mas nunca como nessa altura vi tanta televisão e com tanto fervor. Com o tempo fui vendo menos televisão, naturalmente dispersando-me por outras formas de cultura e entretenimento. Quando comecei a trabalhar no meio televisivo não passei a ver mais televisão, passei a vê-la de outra maneira. Retenho sempre uma frase que julgo ser do Nicolau Breyner, quando lhe perguntaram se tinha visto um programa em que tinha entrado ele respondeu: “Para fazer é um preço, para ver é mais caro”. É costume assinalar a contradição de em Portugal termos passado a ter mais canais mas termos passado a ter menos diversidade na oferta, visto que os canais começaram a competir repetindo o mesmo tipo de formato televisivo. Julgo que isso é verdade só até a um certo ponto. Há uma monocultura comum aos privados generalistas mas com o surgimento do satélite, do cabo e das IP TV, a oferta diversificou-se completamente. A ideia de que a televisão é “pastilha elástica para os olhos” faz cada vez menos sentido. Hoje quando me sento a ver televisão o que eu gosto realmente de fazer é zapping. E se o zapping pode ser, mais do que uma actividade, uma inactividade relaxante, ele pode ser também um extraordinário e estimulante exercício de imersão na cultura popular contemporânea. Uma coisa é ver um filme ou um documentário específico, podemos fazê-lo de múltiplas maneiras: seguindo-o na emissão do fluxo televisivo, gravado, on demand, num DVD, etc. Outra coisa é ver televisão. E ver televisão é fazer zapping. É misturar. É passar para universos totalmente diferentes com um clique. É passar do lixo ao luxo e vice-versa. E ver com igual acesso e possível curiosidade espectáculos degradantes e momentos sublimes. Esta experiência está prestes a sofrer uma nova transformação, que acelerará de forma radical este modo zapping de ver. A Google, em parceria com a Sony, a Intel e a Logitech, está a lançar a Google TV, ou seja, como se esperava, finalmente num único aparelho, o cruzamento da televisão com a net, no ecrã da sala. Sintetizando, é juntar no mesmo botão de comando, a possibilidade de zapping e de linking. Vamos não só poder ver os canais disponíveis como todos os conteúdos autónomos, inteiros ou em snack. Passaremos a ter o Youtube e o Facebook, e o que vier de novo na net. A tudo isso continuaremos a chamar televisão. Os serões familiares, ou de amigos, ganharão uma dimensão incomparavelmente mais aberta nas suas possibilidades. O acto de navegar na net, até aqui uma actividade predominantemente individual, passa a poder ser partilhado não unicamente à distância, como já acontece, mas em presença, no espaço físico, por exemplo, das salas de estar familiares. Com o mesmo entusiasmo com que antes eu e as outras crianças da minha geração olhávamos para a velha RTP a preto e branco, inamovível e inzapável, vamos todos agora poder ver nas nossas salas de estar praticamente tudo o que quisermos. De todo o mundo. E poder zappar e clicar não só ao sabor do acaso ou da preguiça mas igualmente por associação e procura deliberadas. Vai ser uma nova idade de ouro para a televisão.

 

Crónica publicada no Económico no dia 10 de Julho de 2010.



Nuno Artur Silva às 10:50 | link do post


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