Quinta-feira, 19.11.09

Vídeo da versão teatral d'"As Investigações de Filipe Seems". Com Kalaf, Marco d'Almeida e Sandra Celas. Música de Armando Teixeira, desenho em tempo real de António Jorge Gonçalves, realização de Pedro Macedo e Pedro Rodrigues, produção Bus / PF.

 

 

 

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Nuno Artur Silva às 10:00 | link do post

Terça-feira, 17.11.09

Está de novo em Lisboa, para um seminário, Robert McKee, geralmente considerado o grande mestre da escrita de argumentos. Sobre o cinema português as suas considerações são, no mínimo, muito discutíveis ou mesmo ignorantes, sobretudo quando diz que os filmes portugueses fazem da pobreza um objecto decorativo ou que trabalhar com subsídios do estado “é sempre aceitar fazer implicitamente uma certa forma de propaganda”. Mas é impossível não concordar quando diz que o cinema português não tem uma dimensão universal e que é “imaturo”. Contudo, para mim, a afirmação mais interessante é a que faz na entrevista ao DN, quando diz que as pessoas precisam de novas imagens, novas linguagens e novas formas de beleza, e que “Hoje a televisão é o lugar onde tudo isso se concretiza (...) os melhores estão a deixar o cinema para irem para a televisão. A verdade é que lá têm mais liberdade para criar, mais espaço para desenvolverem as narrativas e as personagens, e também mais dinheiro. Os escritores de séries têm hoje um enorme poder”. McKee fala, é claro, da televisão americana. A realidade da televisão portuguesa não poderia ser mais oposta. A produção de ficção na televisão portuguesa, no conjunto dos seus canais generalistas e de cabo é, com honrosas excepções, um deserto de ideias e de formas, um lugar onde não há espaço para se desenvolverem narrativas para além das monocórdicas telenovelas. Um espaço povoado de formatos internacionais plastificados. Um território onde os autores não têm qualquer poder. Não há lugares de decisão artística. É tradição os directores de programas, normalmente jornalistas ou ex-jornalistas, interferirem de forma arbitrária nos conteúdos, sem delegarem essa interferência em equipas de profissionais reconhecidos em áreas artísticas. É normal serem tomadas decisões estratégicas de política de conteúdos por analistas de audiências, marketeiros ou administrativos genéricos. Há décadas que é assim e é por isso que quando pensamos na produção de ficção nacional há tão pouca coisa que mereça ser mencionada.
Quando falo com actores, autores, realizadores ou técnicos de maneira geral, sobre o seu trabalho em televisão, o mais comum é ninguém gostar do que está a fazer. Fazem-no com brio profissional, para ganhar dinheiro, mas ninguém fala do seu trabalho em televisão com entusiasmo. É um extraordinário desperdício de recursos e talento, geração após geração, num meio, a televisão, que devia ser o palco privilegiado para a existência de uma cultura narrativa forte e diversificada. Agora que a televisão se reinventa no contexto da internet e da multiplicação de écrãs, é tempo de mudar os modelos organizacionais dominantes, que têm contribuído para esta situação de estagnação, e investir a sério, com estratégia e de forma planificada, na criatividade. Só a criação de ficções originais pode originar um verdadeiro património audiovisual nacional. Sabendo que as realidades americana e portuguesa não são comparáveis, pela escala e pelo investimento financeiro, há todavia um ponto onde o exemplo americano pode e deve ser seguido: a aposta nos autores.

 

 

 

Crónica publicada no Económico, no dia 14 de Novembro de 2009.



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Quinta-feira, 12.11.09

Vídeo da versão teatral d'"As Investigações de Filipe Seems". Com Kalaf, Marco d'Almeida e Sandra Celas. Música de Armando Teixeira, desenho em tempo real de António Jorge Gonçalves, realização de Pedro Macedo e Pedro Rodrigues, produção Bus / PF.

 

 

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Nuno Artur Silva às 10:01 | link do post

Terça-feira, 10.11.09

Só nos apaixonamos pelas cidades onde nos apaixonamos. Cito de memória a frase, salvo erro, de António Muñoz Molina no seu livro “O Inverno em Lisboa”.
Dizer que estamos apaixonados e falarmos na paixão tornou-se, hoje em dia, uma banalidade. Por tudo e por nada, nas revistas e nas televisões, nos contextos mais diversos, toda a gente declara que está apaixonada por isto ou por aquilo e que não pode viver sem paixão. Lembro-me sempre de um provérbio índio que Sophia de Mello Breyner Andresen citava, julgo que a propósito da palavra revolução, usada por tudo e por nada a seguir ao 25 de Abril, e que dizia que “uma palavra que está sempre na boca transforma-se em baba”.
Mas, se limparmos a baba da vulgaridade e do kitsch, a ideia de estarmos apaixonados pelas cidades onde nos apaixonamos é, ao mesmo tempo, poética e verdadeira.
Molina falava da paixão por uma mulher e, como acontece nas histórias de paixão, quando se perde a pessoa por quem estamos apaixonados, ganha-se para sempre a mitologia dessa paixão, e ela nunca morre. E o sítio onde a paixão começou e o encontro teve lugar fica para sempre um monumento íntimo nessa cidade da nossa vida. “Teremos sempre Paris”, como dizia Bogart em Casablanca.
Hoje em dia, com o fim das grandes narrativas, o amor e a paixão românticos e relativamente uniformizados pela literatura sentimental e pelo cinema clássico de Hollywood e depois banalizados e estereotipados pelas revistas do coração, a televisão e as telenovelas, implodiram e explodiram em mil e um estilhaços. As pessoas, claro, continuam a “apaixonar-se”, ou seja, a ter desejo umas pelas outras e a encontrar inspiração e expressão para o seu desejo na caótica mitologia contemporânea.
Hoje, como antes, é nas histórias e nos seus heróis que procuramos a resposta para perceber quem somos, aquilo com que nos identificamos, aquilo que nos faz correr e nos anima, nos dá alma. O que mudou foram as histórias e a maneira de as contar.
Tal como está a acontecer na relação dos crentes com as grandes religiões uma cada vez maior personalização, especificidade e liberdade na relação de cada um com a mitologia tradicional, também nessa grande religião profana que é a literatura, e em particular a literatura de temática amorosa, os mitos tradicionais estão a dar lugar a uma nova mitologia complexa, instável e incerta.
Mas existirão sempre os sítios e as cidades para as nossas “paixões”. Num tempo em que, pela primeira vez na História da Humanidade, há mais gente a viver em cidades do que no campo, as cidades são cada vez mais os lugares caóticos dessas paixões. Quando falamos de cidades falamos de habitação, trânsito, ordenamento do território, etc, e pensamos em realidades físicas. Mas, mais que uma realidade física, uma cidade é uma realidade mental. Como o amor, “una cosa mentale”. Uma cidade é um livro onde todos os dias se escrevem novas histórias. Romances.
Passear ou vaguear numa cidade é vaguear pelas histórias que fazem a História dessa cidade. Quanto mais histórias mais mítica é a cidade. Quanto mais imagens, mais real é.
No filme Casablanca o avião partia para Lisboa. Rick e Ilsa ficaram para sempre com Paris, mas nunca tiveram Lisboa. Nós, lisboetas, podemos tê-la. Como canta Vinicius Cantuária, “o grande lance é fazer romance”.

 

Crónica publicada no Semanário Económico no dia 7 de Novembro de 2009.



Nuno Artur Silva às 15:26 | link do post

Quinta-feira, 05.11.09

Vídeo da versão teatral d'"As Investigações de Filipe Seems". Com Kalaf, Marco d'Almeida e Sandra Celas. Música de Armando Teixeira, desenho em tempo real de António Jorge Gonçalves, realização de Pedro Macedo e Pedro Rodrigues, produção Bus / PF.

 

 

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Nuno Artur Silva às 10:37 | link do post

Terça-feira, 03.11.09

Hoje, 3 de Novembro de 2009, é o dia do lançamento da caixa com a trilogia das Aventuras de Filipe Seems. A caixa inclui ainda o DVD do espectáculo Conspiração, que estreámos no Teatro Aberto em 2004 e com o qual fizemos uma mini-digressão que nos levou ao Teatro Viriato, em Viseu, à Casa das Mudas na Madeira e, por fim, ao Teatro Estefânia, em Lisboa, onde gravámos, com produção da Bus e realização de Pedro Macedo, a versão que agora está disponível nesta edição especial. Na primeira versão, Filipe Seems era Nuno Lopes, na digressão e versão gravada, Filipe Seems é Marco d'Almeida. As personagens femininas são figuradas pela Sandra Celas e o alter ego narrador de Filipe é o Kalaf. A música é de Armando Teixeira e a direcção de movimento de Amélia Bentes. A voz da Real TV é da Teresa Pina. O desenho em tempo real era, claro, do António Jorge Gonçalves, e o desenho de luz do Ricardo Campos. A folha de sala do espectáculo tinha o seguinte texto:

 

" CONSPIRAÇÃO

UMA INVESTIGAÇÃO DE FILIPE SEEMS
 
“As histórias que se percebem é porque são mal contadas”
Bertold Brecht
 
“un poéte doit laisser des traces de son passage, non des preuves, seules les traces font rêver”
René Char
 
“A verdade é que não sei viver sem ser literariamente. Imaginando uma Conspiração, que desconheço e me inclui.”
Filipe Seems
 
Os aborígenes australianos guiavam-se por canções – songlines. Um canto constituía um mapa e um indicador de direcções. O mundo estava povoado de sonhos e para encontrar o trilho do seu sonho um homem tinha de seguir sempre um determinado canto – a sua songline.
Na Cidade Contemporânea estamos cercados de ecrãs multiplicadores de imagens e histórias que nos fazem perder da nossa história pessoal e do nosso desejo.
No centro do excesso das imagens e das ficções é urgente um lugar para o nosso corpo e um tempo para o segreedo do vodu – que das imagens despoleta o desejo e faz encontrar o trilho do sonho e a sua songline.
 
CONSPIRAÇÃO
  1. Sonho (introdução)
  2. O que é o desejo?
  3. Filipe Seems, contador de histórias
  4. A Cidade
  5. Ana Lógica
  6. A neve que nunva vimos
  7. No more images
  8. Duende e dança
  9. Conspiração
  10. Onde estou quando no sonho estou
  11. O segredo do vodu
Conspiração é a versão teatral da série de Banda Desenhada “As Investigações de Filipe Seems”:
ANA, Ed. ASA, 1993
A HISTÓRIA DO TESOURO PERDIDO, Ed. ASA, 1994
O TRIBO DOS SONHOS CRUZADOS, Ed. ASA, 2003"
 
É o fim de uma aventura que começou, à maneira clássica da banda desenhada, com a publicação de uma página por semana, em continuação, no início de 1992, no jornal SE7E. Do jornal passámos para os álbuns, dos álbuns para a peça de teatro, da peça de teatro para a edição vídeo. Para fechar o ciclo, e sempre no mesmo espírito, aqui fica, também em continuação, a Conspiração.
 
 
 

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Nuno Artur Silva às 11:42 | link do post | comentar | ver comentários (1)

A tensão entre a administração Obama e a Fox News está elevada. A Casa Branca acusa o canal de ser “uma ala do partido republicano” e vai tratá-lo como “um adversário”. Tivemos a versão portuguesa no caso Sócrates vs. Jornal Nacional da TVI. O Jornal Nacional, tal como a Fox, substituiu a deontologia e os princípios jornalísticos por uma agenda política e pela promoção de um ponto de vista.
No caso português a tensão ainda é, ou foi, muito personalizada nas figuras do primeiro ministro e do director da estação e da sua mulher, pivot do jornal (introduzindo aqui um elemento novelesco característico, aliás, do canal em causa). Mas não está excluída a hipótese de haver alinhamentos políticos ou mesmo partidários mais generalizados e óbvios não só neste, mas noutros grupos de comunicação portugueses.
Esta é uma questão central da democracia actual: o controlo dos média e o seu alinhamento político. E, no centro da questão, a liberdade de imprensa. Isto acontece paradoxalmente quando há uma quebra de audiências dos canais generalistas, bem como do número de leitores de jornais. Mas, em simultâneo com esta pulverização de públicos, há movimentos no sentido da concentração desses múltiplos canais e marcas em grandes grupos de comunicação.
Como é que vai ser possível fazer jornalismo, jornalismo a sério, jornalismo de investigação, sem ficar refém dos interesses económicos ou políticos do grupo de comunicação onde se trabalha?
A questão já era colocada no filme The Informer, de Michael Mann (1999), onde o jornalista representado por Al Pacino é confrontado com o facto de a empresa que ele está a investigar por prática de (digamos genericamente) corrupção, ser a principal financiadora do seu jornal, e de, se ele prosseguir com a investigação, o seu lugar no jornal ser posto em causa.
É fundamental que o jornalismo, o jornalismo sério e a sério, não só sobreviva, como recupere o poder que tem perdido. Para que isto aconteça é preciso que os sítios para se fazer jornalismo possam ser não só o jornal, a rádio ou a estação de televisão, e que os jornalistas se comecem a organizar e defender em agências, associações, produtoras...
As notícias vão estar permanentemente online, em actualizações. E vamos estar rodeados de televisão mas, cada vez mais, não só da televisão convencional generalista. Cada um de nós assinará e receberá os canais e as marcas que quiser, pelas redes sociais que quiser.
O que é que fica para os jornais em papel? O que é para guardar. Opinião, reportagem, entrevista, fotografia, cartoon... Em resumo, o que seja mais personalizado, numa selecção com critério e com marca, editorial e gráfica.
No excelente “Ideias Optimistas”, livro recentemente editado pela Tinta da China, Walter Isaacson escreve: “Imaginemos que nos últimos 550 anos a nossa informação nos tinha sido entregue de forma digital através de écrãs. Depois, um qualquer Guttenberg moderno tinha inventado uma tecnologia que permitia transferir estas palavras e imagens para páginas de papel (...) que podíamos levar connosco para o pátio, para o banho ou para o autocarro. Certamente ficaríamos encantados com este enorme passo em frente e iríamos prever que esta tecnologia um dia seria capaz de substituir a Internet.”

 

Crónica publicada no Semanário Económico no dia 30 de Outubro de 2009.



Nuno Artur Silva às 09:30 | link do post

Sexta-feira, 30.10.09

sonhava com uma cidade que não existia, uma cidade e a sua mitologia. os desígnios do acaso são insondáveis. encontrar na rua uma pessoa igual a nós, gémea, que nunca tinhamos visto antes. ana lógica é um nome invulgar. um gato chamado schrodinger, schro. filipe seems. não é o que parece. um detective muito particular. procurava perceber tudo aquilo e escrevia como se escrevesse uma história. ela não tinha passado. ou tinha um passado ilusório, que só era real na sua memória. no fundo, não é o que cada um de nós tem?... mas não era nisto que eu pensava. o que eu pensava naquele momento não era um pensamento, era música, pura música, e isso não se pode descrever. ucronia, o que não se passou em tempo algum. amnésia ucrónica? a história refeita logicamente, tal como poderia ter acontecido. tudo é ficção, acaso e destino, labirinto e jogo. os homens necessitam de fábulas e não há destino mais nobre do que povoar o mundo com as personagens das fábulas. bem vindo ao pavilhão da límpida solidão. orbis tertius design – projecto alice liddell. a casa das belas adormecidas. uma conspiração imaginária. a verdade é que não sei viver sem ser literariamente. a neve de lisboa. encontramo-nos no desejo. a história do tesouro perdido. caminhava pelo fundo do mar e respirava. respirava. um peixe esvoaçava. pensava: é um sonho. a maré descia. e depois acordava. encontramo-nos nos nossos corpos ou é só nas imagens que nos encontramos? a distância pode ser a mais íntima forma de duas pessoas se encontrarem. a lua irreal. guardamos segredos que não é tempo ainda de serem revelados. o tesouro da flor do mar. contam-se histórias desencontradas do seu naufrágio. a caravela estará afundada ao largo da costa alentejana. jóias e ícones das civilizações pré-colombianas. um mapa e um marinheiro. vergílio ventura e um velho cavalheiro da fortuna. o mapa e a mnemónica. o último lugar do mundo onde esperaria encontrar um marinheiro. o mapa é o tesouro? nota no lunário: ... eis a vida, a história de um tesouro perdido. percebes que estás perdido, quanto mais andas mais perdido estás, decides voltar para trás, procurar o sítio de onde vieste, mas não consegues encontrar o caminho de volta, voltas para trás à procura do sítio onde ainda há pouco estavas e já não o encontras. cada passo de volta é um passo para um sítio mais longe. e no que eu não acredito não desejo. ocupava os dias a tecer a trama de dezenas de histórias de cidade. real tv. no more images. e tu, perdeste o teu duende? segue a borboleta. o sonho do sonho. uma vez cruzámo-nos com uma tribo, descendentes de índios, que dormiam com redes por cima da cabeça para nelas ficarem presos os sonhos. são as minhas histórias, as redes dos meus sonhos. um ritual vodu. a imagem interfere com o meu corpo. fere o meu corpo. é uma songline, a borboleta, uma melodia tatuada no corpo, no sonho? esquece as provas, segue as pistas. só as pistas fazem sonhar.

 

* - trailer – conjunto de excertos de um filme, geralmente apresentado para anunciar a sua estreia; pessoa que segue a pista ou rasto de outra ou de qualquer animal.

 

       

 

 

(Clique nas capas para ver excertos dos livros)
 

 

 


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Nuno Artur Silva às 14:00 | link do post

Quarta-feira, 28.10.09

Se olharmos para o cinema português e para a ficção televisiva dos últimos anos, que histórias e que personagens ficam na nossa memória? De tudo o que foi produzido, o que é que deixou inscrição e marca na cultura popular?
Com honrosas excepções, o panorama é desolador. E o facto de sermos um país pequeno, sem escala e sem dinheiro, não é desculpa.
As excepções são quase todas no cinema dito de autor e são casos raros no meio de anos de produção de filmes onde há mais pretensão que arte.
Na televisão, se exceptuarmos o território do humor, o que fica da produção de ficção ainda é, na proporção, menos do que no cinema. Como se explica esta escassez?
A resposta imediata é falta de boas histórias e de bons argumentistas. Mas qual é a razão por detrás desta ausência de argumentos e autores?
A explicação está no divórcio entre as televisões e o cinema português: as televisões não gostam do cinema português que tem sido feito e o cinema português despreza a cultura popular das televisões.
O cinema tem existido unicamente na dependência de um sistema de subsídios estatais. As tentativas de diversificar as fontes de financiamento e os centros de decisão sempre falharam. Para além disso, o único modelo vigente concentra todo o poder na figura do realizador, e quase não existem argumentistas porque estes são vistos como tarefeiros para escrever os filmes que os realizadores têm na cabeça e não são capazes de escrever.
Por outro lado, as televisões portuguesas sempre investiram mais nos programas de entretenimento do que nas séries de ficção. O único investimento que foi feito de forma duradoura na ficção foi o investimento na produção de telenovela. A ideia era imitar o sucesso das telenovelas brasileiras em Portugal e, durante uma década, esse sucesso foi replicado em versão portuguesa. Mas, se é certo que a produção de telenovelas gerou emprego e visibilidade para um conjunto de técnicos e actores, o seu efeito perverso é esmagador. A telenovela é um modelo ficcional pobre, redutor e estereotipado.
Citando João Lopes: “A narrativa nasce de um jogo constante de linhas que não fecham os sentidos do mundo. Fazer narrativa é exactamente o contrário daquilo que vemos nas telenovelas: aí todas as linhas confluem para o mesmo ponto, todos os sentidos parecem unívocos, compramos a ilusão de um mundo transparente”.
Precisamos de boas e variadas histórias e personagens no nosso cinema e na nossa televisão, que têm de deixar de estar divorciados. Antes de mais tem de ser feito um investimento na escrita. Nos EUA o autor está no centro da produção das séries. É ele que escreve e é ele que decide o final cut da série.
Quando comecei a trabalhar como guionista de televisão, no início dos anos 90, estive numa reunião na RTP. E não me esqueço que um dos produtores do programa perguntou, na reunião, se era realmente preciso um guionista para escrever o programa. Isto aconteceu há menos de vinte anos e é revelador . Não só os argumentistas eram precisos como hoje o são mais do que nunca.

 

Crónica publicada no Semanário Económico no dia 24 de Outubro de 2009.



Nuno Artur Silva às 11:53 | link do post

Sexta-feira, 23.10.09

No âmbito da edição deste ano da Experimenta Design e do seu mote "It's About Time" e a convite da Guta Moura Guedes fui o anfitrião da Open Talk inaugural e apresentei o recital As Passagens do Tempo, no Museu da Electricidade, com o apoio da Fundação EDP.

O tema era o Tempo e as suas Ficções. Para a conferência convidei o Filipe Homem Fonseca, o Pedro Gadanho e o João Lopes que, não podendo estar presente, gravou este depoimento.

O recital tinha como ponto de partida os textos do meu livro As Passagens do Tempo, e reuniu os actores Marco d'Almeida, Rui Morisson e Sandra Celas, a música de Armando Teixeira (toda produzida com um instrumento chamado tenorion), o desenho de luz do Ricardo Campos e as imagens e desenho em tempo real do António Jorge Gonçalves, e eu próprio, como mestre de cerimónias.

Sempre me pareceu que a criação e escrita de ideias se desdobra em dois momentos: a escrita propriamente dita e a performance a partir dessa escrita. Escrever na época contemporânea é, à semelhança de ser músico, compor e editar primeiro, e actuar ou representar em público depois. Eu que não tenho talento musical, mas adoro música, sempre admirei a capacidade dos músicos tocarem em conjunto e improvisarem: o lado irrepetível da performance, com a inspiração e o erro do momento. E sempre pensei nos escritores como músicos incompletos, à procura de uma outra espécie de música, pelo meio das palavras. Ler em público, com outros actores e artistas, ou mesmo falar, conferenciar, debater, é o jazz, a jam session de quem escreve.

Foi isso que procurei fazer nos dois momentos da minha participação no It's About Time da EXD'09 Lisboa.

Aqui ficam as fotos e o guião (gosto mais de "argumento", ou mesmo do brasileiro "roteiro") do recital.

Uma nota final para agradecer ao Delfim Sardo ter-me contado a história do Man Ray.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


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Nuno Artur Silva às 11:00 | link do post


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