Quarta-feira, 22 de Abril de 2009

As histórias não existem se não forem contadas. Podíamos dizer: as histórias só existem se forem vividas ou se forem contadas. Se forem vividas passam-se no Tempo e no Mundo, se forem contadas passam-se no tempo e no mundo das representações.
As histórias vividas, só sabemos delas se nos contarem e, portanto, quando nos contam e sabemos delas, elas já não se passam no passado e nos lugares do mundo, mas noutro tempo e noutro mundo. Mesmo quando somos nós a vivê-las, ainda antes de pensar em contá-las, já estamos a vivê-las noutro tempo e noutro mundo, na nossa mente, contando-as a nós próprios.

 

Tudo é ficção. Sejam relato ou fantasia, as histórias são uma ficção do Tempo (a matéria de que somos feitos). Começam por existir na mente de quem as sonha (ou vive, é igual) e depois materializam-se em escrita, sons, imagens, romances, filmes e, como um vírus, passam a existir na mente de quem as lê, ouve, vê e acaba por sonhá-las também.
Pelo caminho, há registos dessas histórias: primeiro, a tradição oral deu-nos conta delas na memória dos povos, temos sinais delas nas imagens dos templos; depois, nos livros e nas bibliotecas; depois nos filmes e nas gravações – e hoje, tudo isso e tudo isso na net, todas as histórias a qualquer momento.

 

Nunca tinha existido um instrumento que se assemelhasse, quase perfeitamente, ao cérebro humano e que, em rede, reproduzisse a relação deste com o mundo e a sua capacidade de o representar: a biblioteca de Babel contemporânea, onde se misturam as histórias (ditas) reais e imaginárias, dos heróis e dos vilões, dos deuses e dos homens comuns, do nosso tempo e de todos os tempos, o raro e o lixo, tudo e todos re-ligados num caos profano de links e acaso - o universo total das representações contemporâneas ligado em rede, pelos terminais móveis ou fixos que nos ligam a ele fazendo de nós leitores/espectadores permanentes mas igualmente criadores/produtores de nova informação nos sites pessoais, interactivos e ficcionais que os nossos eus digitais vão habitando, descobrindo e inventando uma geografia ou uma oceanografia – uma netgrafia – antes incógnitas.

 

E, como escritores/realizadores, nunca como agora tinha sido possível criar directamente sobre a forma final, com recurso a todos os registos possíveis – escrita, som, imagem, trabalhando sobre o (i)material (e-material?), fazendo o design das novas ficções, explorando todo o potencial do meio: utilizando as técnicas da citação, colagem, samplagem, montagem, cruzando histórias em links e zapping, utilizando simultâneamente a rede como uma biblioteca e mediateca inesgotáveis e o computador como uma sebenta electrónica dos dias. Esta prática e os seus métodos abrirão o horizonte das novas possibilidades da velha tradição de contar histórias.
 

Histórias que nos prenderão, como sempre, no feitiço do tempo, na música da sua narração, com as palavras, os sons e as imagens agora inscritos na virtualidade dos ecrãs, palimpsestos do presente – registo de work in progress e imediata versão final, ready-made e obra aberta, partitura acabada e guião sempre incompleto, mapa e território de universos comunicantes: da televisão, do cinema, da literatura… Histórias que queremos contar e nos contam – a nós e a esse mundo sempre incompreensível a que chamamos real.


Publicado no 2º número da Revista Be Digital.
 


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Nuno Artur Silva às 04:45 | link do post

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