Quarta-feira, 22 de Abril de 2009

Estávamos em 1984, eu tinha 22 anos e era a semana do Natal. Nessa altura tínhamos formado, eu e uns amigos, um grupo de teatro e estávamos a ensaiar uma peça infantil.
Desde os meus 17 anos que eu fazia teatro. Tudo tinha começado com um papel, encontrado no chão da Faculdade de Ciências de Lisboa, que dava notícia das actividades da Mandrágora, uma associação cultural que se auto intitulava anarco-libertária e que estava aberta à participação de novos elementos para actividades artísticas, relacionadas com a edição de uma revista e com a formação de um grupo de teatro. Nesse já longínquo ano de 1979, começando a ficar fartos da partidarite aguda que o país vivia e com a qual não nos identificávamos, recém saídos do liceu, ficámos curiosos com a proposta e decidimos apresentar-nos aos activistas da Mandrágora.
As reuniões começaram por ser numa padaria desactivada, perto do Largo do Rato, onde conviviam animadamente diversos grupos, entre os quais os históricos anarco-sindicalistas, liderados pelo mítico Emídio Santana, o homem que falhou o atentado ao Salazar.
As pessoas da Mandrágora eram mais velhas que nós, dez ou quinze anos, e tinham, como se dizia na altura (e ainda se diz no meio artístico) - muitos projectos.
Foi-nos muito fácil identificar com os ideais vagamente anarquistas e, sobretudo, com as propostas artísticas que, depois de muitos, lá está - projectos – falhados, acabaram por dar origem a um grupo de teatro.
O grupo de teatro tinha uma filiação surrealista e esse foi, para mim, uma época recheado de histórias realmente surreais. Fizemos uma série de peças de escassa produção e curta duração, à volta da poesia surrealista portuguesa, dos heróis libertários e de outras variantes mais ou menos adolescentes. Foi para mim um tempo de aprendizagem, de cruzamento de pessoas e ideias, que acabou, como não podia deixar de ser, numa cisão ideológico-artística, quando eu e a minha “facção” manifestámos a nossa vontade de abandonar o modelo dos trabalhos colectivos em que todos faziam tudo, e passar para um modelo em que cada um fazia aquilo que, pelo menos, achava que sabia fazer. O que finalmente me libertava de ter de fazer cenários, adereços ou de ser actor, coisas para as quais não tenho o mínimo jeito, e me deixava com a minha última hipótese criativa, a de escrever. (Que ainda hoje não tenho a certeza se ainda é sequer hipótese). Assim, ao fim de cinco anos, terminou a nossa aventura na Mandrágora, de onde saímos acusados de desvio pequeno-burguês, debaixo da profecia de que acabaríamos a escrever teatro de revista para o Parque Mayer. (Profecia que, de certa maneira, se cumpriu).
É neste fim da minha história com a Mandrágora que chegamos à história devida que queria contar. O grupo que saiu decidiu escrever uma peça infantil. Foi a última peça que fizemos ainda dentro da cartilha da Mandrágora: escrevemo-la em conjunto, fizemos o cenário e os adereços e representámo-la nós próprios. Ensaiámo-la numa sala de estar cedida por uma associação de trabalhadores (a Base FUT, onde convivíamos com os músicos da Era Nova e conhecemos o Zeca Afonso!), mas não tinhamos sala para a estrear.
Estávamos em 1984 e havia uma comunidade de refugiados timorenses no Vale do Jamor. Contactámo-los e propusemos ir lá fazer o espectáculo no Natal, para as crianças deles.
A peça chamava-se Anoitecendo e era a história dos seres do mundo invisível que faziam a passagem do dia para a noite e penduravam a lua e as estrelas.
Era uma peça simples e despretensiosa, com canções e situações cómicas. No dia combinado, 22 de Dezembro de 84, com dois carros emprestados e mais meia dúzia de amigos, debaixo de uma chuva torrencial, seguimos para o Vale do Jamor, onde atolámos os carros e os sapatos num lamaçal, antes de chegar ao local onde a comunidade timorense nos esperava.
Era um conjunto de casas pré-fabricadas com um pavilhao central onde a comunidade se reunia. Foi aí que montámos o cenário, que se resumia a uma série de flores de cartão, um castelo e meia dúzia de adereços. E a peça começou.
A sala era pequena para toda a comunidade e à frente das cadeiras as crianças sentadas no chão acabavam por ocupar parte do espaço dos actores. Eu desta vez estava de fora, a tentar dirgir minimamente as operações, as luzes, as entradas e as saídas.
Toda a organização se veio a revelar inútil. À medida que a peça se ia desenrolando as crianças iam avançando e entrando no cenário, absolutamente fascinadas pelas personagens. Nunca nenhuma delas tinha visto teatro na sua vida. E nós nunca tínhamos visto ninguém acreditar tanto numa história e nas suas personagens de cartão mal cortado.
Os seres do mundo invisível montaram a noite, penduraram as estrelas e a lua. E a peça acabou numa chuvada de palmas. Ficámos sem saber o que fazer e, sem que tivessemos tempo de fazer o que quer que fosse, as crianças começaram a guardar para si as flores, as estrelas e o que podiam do cenário.
No final os representantes da comunidade, num gesto de agradecimento que foi feito no meio de um súbito silêncio solene, ofereceram a cada um de nós um porta-chaves com a bandeira de Timor independente.
Saímos do Vale do Jamor meio atordoados e esse atordoamento julgo que ecoa, em cada um de nós, até hoje.
Aqueles cinco anos de vagos ideais anarco-libertários e artístico-surreais, ganharam ali, quando menos o esperava, um sentido concreto. Depois a vida continuou e vieram outros “projectos”. Mas nunca, nunca, depois daquele, houve um único que fizesse tão genuíno sentido.

 

(História contada no programa da Antena 1, História Devida, em 2009).

 


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Nuno Artur Silva às 12:52 | link do post | comentar

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