Sábado, 25 de Abril de 2009

Resisto à ideia de escrever uma autobiografia. Citando a piada corrente: só se for uma autobiografia não autorizada. E, citando Jorge Luís Borges, coisa que eu faço recorrentemente, no cartão de visita escreveria só: Nuno Artur Silva, contemporâneo.
Curiosamente, foi a pensar nisso que surgiu o nome para a série de televisão mais recente das PF, Os Contemporâneos, o que mais me diverte dos meus actuais trabalhos de produção e direcção criativa.
Defendo-me escondendo a minha autobiografia na autobibliografia, ou na autovideografia, ou numa grafia qualquer. E a primeira questão é: o que é que eu faço realmente?
Num texto escrito para o Expresso, a convite da BBDO e do Banco Privado Português (risos) fazia a seguinte interrogação hamletiana (e patrocinada!) acerca da minha profissão:
“Não é fácil explicar o que eu faço. Autor? argumentista? produtor? empresário? Ultimamente digo empresário porque é mais simples. E curiosamente mais respeitável. Pensando bem, aquilo que tenho de começar a dizer é que sou artista de variedades. Não só porque me parece verdade mas porque pode causar divertidos equívocos, não negligenciáveis para uso ficcional. Tal como Picasso (é gira a comparação, não é?) teve o seu período azul, período rosa (?), etc, eu fui actor de grupo alternativo (!), vagamente intelectual, literato, professor, humorista, fundei uma empresa/agência de autores, etc. Tudo isto não adianta porque, desde que apareço na televisão, sou simplesmente conhecido como “aquele gajo do Eixo ou lá o que é”.”
Há um momento na minha vida (início dos anos 90) em que tive de escolher entre ir para professor de literatura portuguesa e vasculhador da arca do falecido Pessoa, ou ir para o maravilhoso mundo da televisão, concretamente como autor de textos para o vivíssimo Herman José. A escolha recaiu na segunda hipótese. Ah! (gargalhada).
Desde aí, para os literatos, artistas, críticos, secções culturais e jornais de letras, serei sempre um tipo da televisão, um comediante, um entertainer. Para os tipos da televisão, serei sempre um intelectual, o que na sua gíria significa um tipo com a mania que é esperto e que não percebe nada do que as pessoas realmente gostam. Ambos têm razão, claro.
O que é curioso, e de certeza não acontece só comigo, é que sou mais conhecido pelas coisas que faço menos bem. As outras ninguém sabe ou ninguém quer saber. Por exemplo, o melhor livro que escrevi chama-se As Passagens do Tempo, Edições Cotovia, Lisboa, 2000. 1500 exemplares. É um livro de apontamentos. Sem dúvida autobiográfico. São notas à volta da ideia do tempo e das suas passagens.
Em 2005, com o Miguel Guilherme e a Inês Fonseca Santos, iniciei o projecto A História Devida, na RDP, que é a adaptação para português do Projecto Nacional de Histórias do Paul Auster. A devida história de vida: “Histórias. Toda a nossa vida gira à volta das histórias que ouvimos, lemos, vemos e sonhamos. Somos movidos pelas histórias que nos inspiram, emocionam, impressionam – e nos dão o sentido e os sentidos que, acreditamos, a vida tenha.
As histórias são, na sua imaterialidade, a forma concreta de percebermos e sentirmos a matéria de que são feitos os sonhos e de que é feito esse sonho principal que é a nossa vida, a nossa existência - o nosso corpo e o nosso tempo. (...)
As histórias da nossa memória são histórias onde nós somos personagens. Nós ou, mais exactamente, o que nós fomos. Mas é nessas personagens dessas histórias de amor, amizade, coragem, cobardia, maluquice, banalidades, fugas, fulgurações, etc, etc, etc, nessas histórias sempre meio inventadas que encontramos sempre a meia verdade do que somos hoje.”
Em 1994, adaptei com um grupo de amigos em estado de graça, O que diz Molero, de Dinis Machado. Foi um daqueles acasos, que ficamos a acreditar que não foi por acaso. No programa da peça escrevi a minha autobiografia assim:
 

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Hoje já não sou tão melancólico. Sou mais melancómico, para citar outro Nuno (o Costa Santos).
1 – A Elaboração dos Acasos, Edição & etc; 2 – Fizemos três álbuns de banda desenhada e é lá que é capaz de estar o meu melhor auto-retrato, na forma de um alter ego desenhado pelo António Jorge. Um detective fictício que vive numa Lisboa invisível e que tal como René Char procura as pistas e não as provas, porque só as pistas fazem sonhar; 3 – As PF começaram por ser uma equipa de amigos argumentistas a escrever humor, hoje é uma agência de autores e uma rede criativa. Daí até cá passaram quinze anos, muitas pessoas, muitas histórias.
Chegado ao final de 2008, sinto-me a personagem que escrevi para a peça Ituning, que no meio das músicas, dizia: “tens na cabeça um romance... que nunca vais escrever. E estás a tentar? Romance ou seja lá o que for. Seja lá o que for. Nota. Esboço. (...) (Uma arte poética?): procurava a coincidência. só não a encontrou por acaso. Nota: uma poética, uma arte poética, a partir da ideia de erro.
Eu posso não estar certo
Se o certo é não errar
Eu erro a noite inteira
Sem a noite encontrar” (1)
1 – Refrão de “fado do coração errante”. Foi gravado pela Maria João e pelo Mário Laginha, que fez a música.
Há uma tira de BD do Miguel, da série Histórias de Amor, em que a personagem diz: “Gostava de ser aquilo que era quando quis ser o que sou hoje”. Eu também sou essa personagem. Somos aquilo que desejamos, aquilo que fomos, se calhar, o que somos mais, foi o termos sido.
Lembro-me de, na minha infância, ir com o meu pai comprar o jornal. Era um ritual só nosso. Lembro-me de ver televisão à noite, na sala de jantar, com a minha mãe e o meu pai e o seu jornal. Era uma televisão pequena, a preto e branco, e vi lá tudo o que a RTP tinha para nos dar. Todos os filmes e os desenhos animados e a chegada à lua. Tudo. Via enquanto brincava com os legos, os carrinhos Matchbox e os bonecos que vinham dentro dos gelados Olá.
Na peça O Marinheiro, de Fernando Pessoa, uma das veladoras pergunta a outra se ela era feliz. A outra responde: “começo neste momento a tê-lo sido outrora.” A felicidade é essa coisa transmitida em diferido.
Lembro-me do 25 de Abril. Não houve aulas. Tinha 11 anos. O meu pai dizia “é desta”. E estava eufórico, como não era costume. Fomos para a rua com o meu tio. Dar sandes e cervejas aos militares. Nessa primeira semana vivemos dentro daquele verso da Sophia: “o dia inicial inteiro e limpo”. Esse dia é um dos nossos mais belos momentos nacionais.
O meu pai morreu em 2001. No final, falava imenso com ele, mas não sei se ele ainda me ouvia.
Agora tenho um filho com quinze anos e vem outro, ou outra, ainda não sabemos, a caminho. A família muda e permanece. É um romance em fascículos.
Aos 46 anos, continuo com o meu bloco de notas e lápis.

 

(Biografia publicada no Jornal de Letras em Janeiro de 2009).


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Nuno Artur Silva às 07:06 | link do post

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