Sábado, 25 de Abril de 2009

O dia 25 de Abril de 1974 é o mais belo monumento nacional. É um monumento no tempo e não no espaço. Não o podemos visitar mas podemos celebrá-lo.
Não conheço melhor definição e celebração do 25 de Abril do que o poema de Sophia:
“Esta é a madrugada que eu esperava / O dia inicial inteiro e limpo / Onde emergimos da noite e do silêncio / E livres habitamos a substância do tempo.”
Nesse dia, eu tinha 11 anos. O meu pai ouvia comunicados na rádio e dizia “desta é que é”. Eu só perguntava “desta é que é o quê?”. A minha mãe dizia “já não vais para a guerra”. Depois o meu tio apareceu e fomos os três, eu, ele e o meu pai, para a rua. Não percebi exactamente o que se estava a passar mas o ambiente era inacreditável, uma sensação primeiro de tensão, depois de festa, e por fim de possibilidade, (digo eu, agora). No dia seguinte, vi na televisão a libertação dos presos políticos e comecei a perceber.
No ano a seguir, os livros de História da escola mudaram radicalmente. Onde antes havia os grandes feitos dos heróis portugueses - reis, guerreiros, santos, em nome da fé e do império - passou a haver movimentos políticos e sociais, o curso marxista da História. O livro de História de Portugal do liceu em 75 não referia um único nome individual mas era, claro, tanto quanto o outro, sobretudo a celebração de uma ideologia.
Passou-se de um extremo a outro e vivemos, em 10 anos de História, num misto de drama e farsa, o que muitos países viveram em períodos muito mais longos.
Foi preciso que alguma coisa mudasse para tudo ficar na mesma? Não. As coisas mudaram realmente e não ficaram na mesma, como se pode ver no documentário “Portugal, um Retrato Social”, do António Barreto.
A única grande reforma que ficou por fazer, como tem sido constatado com uma gritante evidência, foi a da Justiça, que transitou corporativamente, sem revolução, do Estado Novo para os nossos dias e que continua a ser uma vergonha nacional.
A Justiça deve ser o grande regulador institucional da democracia. Se ela falha, é o sistema que está em perigo. O outro grande regulador da democracia, e este nunca pode ser institucional, é a liberdade de opinião. É o princípio de todo o jornalismo, de todo o comentário, de toda a criação. É o princípio da existência de uma Opinião Pública pujante e diversificada. A qualidade de uma democracia pode ser medida pela qualidade da sua Opinião Pública. Só pode haver dois reguladores para a liberdade de opinião, a Justiça e o próprio opinador. Não pode haver limites para a liberdade de expressão.
Hoje, 35 anos depois do 25 de Abril, o meu trabalho são as minhas ideias e a escrita. Seria impossível fazer o que faço se não vivesse em democracia. A nossa democracia ainda é muito imperfeita. Essa imperfeição faz parte da perfeição da ideia democrática: é preciso aprofundá-la e melhorá-la dia a dia.
De 74 para cá há ainda muita coisa que não mudou assim tanto. Mas, no essencial, tudo mudou. E do essencial, o essencial é a liberdade.

 

(Crónica publicada dia 25 de Abril no Semanário Económico).
 



Nuno Artur Silva às 05:26 | link do post

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