Quarta-feira, 22 de Abril de 2009

Punch drunk lovers lost in translation

 

“Ou as nossa vidas têm história, ou não há maneira de as levarmos a cabo.
Concordo. Dag concorda. Sabemos que foi por isso que nós três deixámos para trás as vidas que levávamos e viemos para o deserto - para contar histórias e assim fazermos das nossas vidas romances dignos de serem contados”. *

Romances? Já não há romances. Há contos (tales) para uma cultura acelerada - “… o que me chateia é só o mundo ter ficado grande demais, demais para a nossa capacidade de contar histórias dele e termos que nos amanhar com estas aparas, falhas, nacos do bolo”.

Em “Geração X” as histórias são episódios e são sempre interrompidas por apartes, comentários, distracções. Não há epifanias, revelações, visões do mundo. Há sound-bytes do pensamento que são fixados, afixados literalmente como slogans, one-liners que sinalizam o espírito do tempo:

“Morto Aos Trinta Enterrado Aos Setenta”; “Grau Zero Mental: ponto onde nos situamos a imaginar a bomba atómica: com frequência, um centro comercial.”; “Nostalgia A Curtíssimo Prazo: saudades de um passado extremamente recente: Santo Deus, como tudo parecia melhor na semana passada.”; “Tu és o teu sexo”; “Simula-te”; “Aventura Sem Risco É Disneyland”.

Andy Claire e Dag, nos seus vinte e muitos, despediram-se dos seus “empregos sem objectivo onde se trabalha muito e ninguém agradece” e decidiram viver no deserto da Califórnia, em Palm Springs. Trabalham em “Macjobs: empregos mal pagos, sem prestigio, sem dignidade, sem lucros, sem futuro”. Vivem no deserto como numa ilha, rodeados dos ecos e detritos da cultura americana contemporânea, a cultura do centro comercial, da abundância e da overdose, do lixo nuclear.

Que geração é esta, X? A geração que nasceu em 60 (fins de 50, inícios de 60), que tem 40 anos na passagem do milénio, e 20 e muitos / 30 no início dos anos 90 – o livro é de 91.

É o autor, Douglas Coupland, que se refere ao termo Geração X como tendo tido inicialmente uma conotação negativa mas sendo hoje “semiotically blank”, ou seja, nele podemos inscrever tudo. É um identificador, geracional mas essencialmente identificador de uma certa sensibilidade contemporânea.

No seu primeiro livro, “A Era Do Vazio” Gilles Lipovetsky, já em 1983, a propósito dos paradoxos do homem hiper-moderno, dizia que “ao mesmo tempo que aumenta a responsabilidade, acentuam-se os comportamentos irresponsáveis. Os indivíduos hiper-modernos são simultaneamente mais informados e mais desestruturados, mais adultos e mais instáveis, menos ideológicos e mais tributários de modas, mais abertos e mais influenciáveis, mais críticos e mais superficiais, mais cépticos e menos profundos”.


A Geração X ou o homem hiper-moderno onde nos reconheço, me reconheço, não tanto pela coincidência geracional mas pelo reconhecimento ocasional de obsessões ou pormenores de estilo, geografia de links, trends, clima - não envelheceu, deslocou-se. É um conceito operacional. O design de um conceito ficcional, cultural.

O tema dos livros de Coupland é a cultura em que vivemos. As personagens e a intriga estão desarticuladas, secundarizadas por conceitos e observações sociológicas. Sendo um livro sobre o seu presente, “Geração X” é profético em relação ao nosso presente. Se no início dos anos 90 tínhamos 20 e muitos e desertávamos dos yuppies e do seu yuppieismo, hoje que eles se desintegraram, desertamos no interior das cidades, de não-lugares para sítio nenhum.

A minha pátria não é a língua, é a literatura. Não a literatura portuguesa mas a literatura do mundo onde me reconheço. E reconheço-me reconhecendo-nos contemporâneos tardios desta geração X e destas personagens náufragas sem tragédia num mundo de entretenimento permanente.

Distraídos nos omnipresentes ecrãs, habitamos as ficções tal como habitamos as casas. E de ficção para ficção deambulamos no espaço público das cidades. Tal como no espaço físico urbano, a paisagem das ficções cresce desregradamente e as cidades de ficção multiplicam os seus subúrbios. A paisagem está degradada, as construções são péssimas, o desordenamento estagna a imaginação e a diferença. E o ar do tempo torna-se irrespirável quando devia ser inspiração.

A arte da ficção é, como a arquitectura, uma arte das cidades. Construímos as ficções para o espaço público. E a nossa vida é a nossa mais íntima e intraduzível ficção.

“ O artista deve, não contar a sua vida como a viveu, mas vivê-la da forma como a há-de contar” (André Gide).

Hoje, em Portugal, como em Palm Springs no inicio dos anos 90 americanos, estamos como Andy, Claire e Dag, petrificados pelo permanente presente, no deserto da Califórnia, um deserto rodeado de excessos por todos os lados. É um deserto interior, o deserto onde nos perdemos na transição para a idade adulta.

Ele é hoje, no inicio do milénio, o armazém esquecido onde Barry Evan, a personagem de Adam Sandler em “Punch Drunk Love”, passa os dias antes de se embriagar de amor para se perder na translacção para o espaço do Havai irreal. O mesmo espaço irreal que é Tóquio, onde o Bob Harris de Bill Murray e a Charlotte de Scarlett Johansson se encontram Lost in Translation.

É nessa Tóquio que nos encontramos perdidos na translação, porque só na translação em que nos perdemos nos encontramos, na suspensão de uma ficção, o amor.

Em “Geração X” as personagens não se apaixonam umas pelas outras: “Para que se saiba, tal como eu, Dag e Claire também nunca se apaixonaram. Acho que isso seria demasiado fácil. Em vez disso, tornaram-se também camaradas e, devo dizer, pelo menos o facto de sermos todos amigos simplifica a vida”.

A vida simplificada: “Há que escolher entre a dor e o labor”.


“Mesmo antes de tudo isto, o teu melhor amigo ergue o pescoço, atira-se a ti e dá-te um beijo na boca, após o que te diz: - Já está. Sempre desejei fazer isto.
E pronto. No varrer silencioso do vento quente, como a abertura de três mil milhões de portas de forno que imaginaste desde os teus seis anos, acabou-se: um tanto assustador, um tanto sensual, com laivos de desgosto. Muito como a vida, não acham?”.

O amor é cada vez mais uma hipótese remota, vagamente adiada, da ficção de uma relação para a de outra, acelerando para sitio nenhum, (já não) procurando um sentido para a música que nos move – o ténue fio do desejo e das suas declinações, mas simplesmente vagueando os sentidos e falando, ocasionalmente, sobre eles.


Diz o Elvis Costello (ou o Steve Martin ou já não sei quem) que “escrever sobre a música é como dançar sobre a arquitectura”. Não há nada melhor do que dançar sobre arquitectura.

 
(* Geração X, Douglas Coupland , edição portuguesa Teorema, tradução de Telma Costa)

 

Publicado no Jornal dos Arquitectos em Janeiro de 2004.
 


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Nuno Artur Silva às 06:36 | link do post

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