Sábado, 25 de Abril de 2009

O que é hoje um canal de televisão? E o que vai ser no futuro próximo um canal de televisão? Fiz esta pergunta na minha crónica da semana passada, a propósito do quinto canal. Mas, como é óbvio, a pergunta é genérica e deve ser feita a propósito de qualquer canal, que venha a existir ou que já exista.
Primeiro, temos de pensar que os canais existem no contexto de estações, ou de forma mais ampla, de grupos de comunicação. E que estes existem cada vez mais numa lógica multi-plataforma.
Mas perante a multiplicação de plataformas de oferta de conteúdos, a grande questão é: o que vai distinguir um distribuidor de outro, uma estação, um canal, de outro?
A resposta não é muito difícil: conteúdos exclusivos. E a comunicação, imagem e marketing desses conteúdos, individuais e integrados na rede do canal, da estação ou do grupo.
Para ter conteúdos exclusivos é preciso investir de raiz na produção ou co-produção original. Este é o princípio da criação e distinção de marcas próprias multimedia.
Como é que isso está a ser feito pelas estações existentes? Deixemos, por agora, a RTP e a SIC. Concentremo-nos na estação líder de audiências.
A TVI é um caso de fortíssima identidade. A razão é simples: a TVI tem um único canal, apresentado como um todo, para um público alvo que lhe tem sido fiel. Um público que não se dispersa por outros media e que tem na televisão a sua central e quase exclusiva fonte de entretenimento.
É para ele que é feita uma programação que quase se pode resumir a um único programa, do princípio ao fim do dia. Um reality show novelizado de fundo melodramático, sentimental e maniqueísta. Começando nos talkshows da manhã e da tarde, abrindo ao segmento mais jovem ao fim da tarde, mas sem abdicar do estilo de fundo, que é alargado aos noticiários, onde os jornalistas assumem o papel de justiceiros e tomam partido. Veja-se o caso paradigmático da cobertura do caso Casa Pia, ou o estilo da jornalista vedeta da casa, Manuela Moura Guedes. O clímax deste dia-programa são, é claro, as telenovelas, que se repetem quase indistintamente numa celebração desse modelo melodramatico e sentimental.
João Lopes tem vindo a dizer que a telenovela se tornou o fenómeno cultural mais marcante do pós 25 de Abril. A questão é como escapar ao seu modelo monocórdico.
A TVI começa a ensaiar essa variação da sua própria identidade, quer com os anunciados canais no cabo, quer com produções aparentemente menos telenovelescas, como Equador, ou com o anúncio da construção dos mega-estúdios. Vai ser interessante observar os próximos capítulos.

 

(Crónica publicada dia 6 de Dezembro no Semanário Económico).

 



Nuno Artur Silva às 05:01 | link do post

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