Sábado, 25 de Abril de 2009

Fui educado entre duas religiões: o catolicismo, pelo lado da mãe e o benfiquismo, pelo lado do pai que, com o padrinho, logo no dia a seguir ao meu nascimento, tratou da inscrição de sócio.
Cresci nos anos 60, entre a catequese e o cheiro a velas da igreja de Campolide, as orações a Maria, na escola, em Maio, uma ida a Fátima, o pacote litúrgico completo e, do outro lado, o Eusébio, o Estádio da Luz, o Domingo Desportivo, o campeonato sem derrotas, o Tóni, o Néné...
Logo a seguir à primeira comunhão, o catolicismo foi-se, com as primeiras leituras. O futebolismo durou mais tempo. Aos 24 anos decidi que já chegava. Disse ao meu pai que não fazia sentido para mim ser sócio do clube. Ele disse-me que podia esperar pelos 25 anos e ser Águia de Prata. Pareceu-me justo. Fiz os 25 anos e, na semana seguinte, já Águia de Prata, deixei de ser sócio do Benfica e passei a ser da Amnistia Internacional. É outro campeonato, não fazem jogos, mas, chamem-me chato, fico com a sensação que o dinheiro é mais bem empregue.
Independentemente da demagogia barata, o que me aconteceu com o futebolismo, como antes com o catolicismo, foi ter deixado de me entusiasmar por aquela mitologia. E hoje em dia, com a fraca qualidade do futebol das equipas portuguesas e com a ocupação do espaço dos media por cada vez mais comentadores de comentadores, não já só dos jogos, mas dos bastidores, o tédio substituiu a emoção. Resta a excepção de alguns poucos jogos ou jogadores especiais e o suspense de um ou outro resultado.
O futebol invade cada vez mais, como um vírus, os diversos media, mesmo os mais especializados. Canais de cabo de notícias abrem noticiários com longos minutos de entrevistas sobre declarações sobre jogos que aconteceram ou ainda não aconteceram.
Há uns anos passou na Sic Radical uma série de humor, Pionés, onde havia um sketch que se repetia e que eu gostava imenso: era só um locutor a ler monocordicamente resultados de futebol entre equipas que soavam regionalíssimas. Tipo “Desportivo de Celorico da Beira 1 – Sport Recreativo do Fundão 0”. (O meu favorito era o Serenela Andradense, que era recorrente). É o que me lembra sempre que vejo um programa sobre futebol nas televisões.
É certo que o futebol é um excelente substituto para a guerra. Nem quero pensar para onde iria toda a agressividade dos adeptos se não houvesse futebol. Mas, por outro lado, parece-me absolutamente deprimente que todo o entusiasmo ou, para usar o lugar comum, a “paixão,” da esmagadora maioria dos meus contemporâneos só encontre expressão na discussão à volta deste jogo banal e repetitivo.
Não tenho uma visão maniqueísta que defenda a substituição dos debates de futebol por debates sobre cultura. Aliás, quando estes acontecem na televisão portuguesa, acabam por ser tão entediantes quanto os de futebol.
Este não é um manifesto contra o jogo em si, é contra o empobrecimento das mitologias. Estes heróis, os seus feitos, os seus exércitos e os seus bardos, não nos fazem sonhar alto.

 

(Crónica publicada dia 18 de Abril de 2009 no Semanário Económico).

 

 



Nuno Artur Silva às 05:25 | link do post

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