Sábado, 25 de Abril de 2009

No último fim-de-semana sairam duas notícias que aparentemente não têm nada a ver uma com a outra mas que, no fundo, têm. Ou deviam ter.
Primeiro, a notícia do êxito do Festival Super Bock em Stock, inspirado no texano South by South West, organizado por uma empresa privada, a promotora Música no Coração, com o apoio da Câmara Municipal de Lisboa. Um festival que reuniu um conjunto de músicos pop de múltiplas proveniências, alternativos e diversificados que durante duas noites actuaram em quatro diferentes salas: Teatro Tivoli, Cinema São Jorge, Teatro Variedades e Cabaret Maxime. De uns para outros destes espaços, circularam duas mil e quinhentas pessoas em cada noite.
Depois, a notícia de que foi anunciado o projecto vencedor do concurso público internacional para a requalificação do Parque Mayer e zona envolvente. No caso, um projecto do gabinete Aires Mateus e Associados.
Ambos têm a ver, claro, com a reactivação de uma zona central da cidade, o Parque Mayer e a Avenida da Liberdade.
No caso do Festival, ele é paradigmático de como deveria ser a animação cultural e de espectáculos da cidade. Deve ser iniciativa dos cidadãos, dos artistas e das empresas, com os patrocinadores, e deve ser a Câmara a ter o papel de amplificador dessa oferta artística, proporcionando os espaços e o apoio nas acessibilidades, segurança e divulgação. Não deve ser a Câmara a organizar festivais, nem a fazer escolhas artísticas.
Por outro lado, a organização de um festival que tire partido dos espaços já existentes numa zona da cidade, criando circulação, movida e abrindo a possibilidade do surgimento de actividades paralelas e complementares, desenha um modelo de animação cultural que se deveria estender e multiplicar por outras zonas e outros géneros de entretenimento e cultura.
Qualquer projecto de recuperação do Parque Mayer, muito mais que um mero projecto de arquitectura, deve ser um projecto de programação, de lazer e cultura que, partindo de um espaço com uma simbologia muito própria na cidade de Lisboa, ligue e abra esse espaço às zonas circundantes, desde logo o Jardim Botânico e a Faculdade de Ciências e os seus museus, mas também o Hot Clube, o Maxime e o Ritz Club (que seria perfeito para se converter no novo B’leza ) ou na Avenida da Liberdade, especificamente, o Cinema São Jorge e o Teatro Tivoli, podendo ainda descer e ligar com os equipamentos da zona dos Restauradores.
Sei que o projecto vencedor parte deste pressuposto e tem condições, quer pela suas ideias, quer pela qualidade das pessoas envolvidas, para que possa concretizar esse desejo de todos nós, de ver renascer o Parque Mayer.
Mas é preciso que ele seja, de facto, mais do que um projecto de arquitectura e seja pensado como um activador de conteúdos, ou seja, como gerador de linhas de programação.
Que não se caia no erro de querer regressar ao que já não existe mas que se pense no que pode vir a existir. E, sobretudo, que não se caia na tentação de querer concentrar tudo num único teatro ou numa programação centralizadora que ninguém, e muito menos a Câmara, deverá ter. Que se aposte na disseminação e multiplicação dos espaços já existentes ou a existir, e que eles possam ser articulados numa lógica de rede e de passeio público.
Duas ideias programáticas gerais: um espaço para a família, durante o dia, com espectáculos infantis e juvenis, restaurantes, cafés, livrarias, ateliers, lojas, etc.; e, durante a noite, um espaço para as artes performativas e do improviso, nomeadamente a música e a comédia.
Antes de mais, que seja um espaço aberto e que, desde já, a discussão do que ele possa ser, seja já uma discussão aberta.

(Crónica publicada dia 13 de Dezembro no Semanário Económico).
 



Nuno Artur Silva às 05:03 | link do post

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