Sábado, 25 de Abril de 2009

A NBC anunciou, a semana passada, que o apresentador e comediante Jay Leno passará a apresentar um novo programa diário no horário das 22 horas. O Público deu a notícia e falou com David Lavery, professor de televisão e literatura (!) que disse que não se tratava de uma simples reorganização de grelha de um canal americano mas sim de “um ponto de viragem e não um bom sinal para quem se preocupa com o futuro da televisão”.
O que está em jogo é a substituição de cinco horas de ficção semanais por um talk show. Percebe-se o contexto de crise, face aos custos elevados da produção de ficção, bem como uma reacção à multiplicação da concorrência, agora também na net, mas sobretudo, como uma resposta à banalização dos sistemas de gravação tipo Tivos.
Será esta decisão apenas fruto da crise ou um sinal de mudança irreversível da programação dos grandes canais de televisão?
Os Estados Unidos vivem actualmente uma época de ouro das séries televisivas. Enquanto o cinema mainstream americano se infantilizou, as séries televisivas tornaram-se adultas, complexas, sofisticadas.
Isto explica-se, em grande medida, pelo perfil dos públicos: o grande consumidor de cinema nos Estados Unidos, como na Europa, são os adolescentes, que privilegiam o cinema de grande espectacularidade, de efeitos especiais e super heróis, com estética e modelo cada vez mais inspirados nos videojogos.
O grande consumidor de séries de televisão é um público mais adulto que as visiona em casa, cada vez mais fora dos horários de emissão nos canais, quando quer, às horas que quer, por sistemas de gravação ou DVD.
É só enumerar os grandes títulos de séries da última década para confirmar a qualidade de que estava a falar: The Sopranos, Six Feet Under, The West Wing , Rome, 24 Lost, etc., etc., etc....
Numa conferência recente, em Portugal, o mestre da escrita de argumento Robert McKee dizia mesmo que o território ideal para o trabalho do argumentista hoje em dia era a televisão, e aconselhava os novos argumentistas a apresentarem os seus trabalhos às estações de televisão. Será que esta época de fertilidade ficcional vai acabar?
É claro que isto é uma realidade americana. Em Portugal nunca houve um investimento continuado na ficção. Aliás, em Portugal não há indústria audiovisual.
Com a excepção de um género, é justo que se diga, a telenovela. Que vive uma época de apogeu, embora a produção se limite praticamente a uma estação de televisão, a TVI. Mas, mesmo assim, não poderemos falar de diversidade dentro do género. O tom, o estilo e o tema das novelas repetem-se de umas para as outras, sem grande diferenciação.
Será possível mudar este estado de coisas? Qual é a possibilidade real de ter uma produção regular e diversificada de ficção nas televisões portuguesas, numa época em que mesmo na grande indústria internacional a produção parece começar a decair?
Julgo que é, como sempre, uma questão de criatividade – de conteúdo e de modelo de produção e negócio.
Mas há um género de ficção que, desde sempre em Portugal, concilia o baixo custo com a captação de públicos e a criação de conteúdos personalizados e originais: os programas de humor.
Se pensarmos na história da televisão portuguesa, da produção nacional, o que fica na memória das pessoas são, com grande probabilidade, muitos programas de humor. Dos mais populares aos de culto. Tem sido nesse território que tem sido produzidos os programas originais que mais marca têm deixado na sociedade portuguesa.
Não seria esse um caminho para, por exemplo, a SIC reencontrar uma identidade e criar uma diferenciação da TVI? É só uma ideia.

 

(Crónica publicada no dia 20 de Dezembro de 2008 no Semanário Económico).

 

 



Nuno Artur Silva às 05:04 | link do post

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