Sábado, 25 de Abril de 2009

Aqui fica, no início de 2009, a evocação de dois escritores que nos deixaram em 2008. Sendo muito diferentes, ambos deixaram uma marca pessoal e original na cultura portuguesa, pelos seus livros e por aquilo que eles foram.
Lembramos o António Alçada, é claro, como foi referido nos seus obituários, pela Moraes Editora, pela revista O Tempo e o Modo, também pelas Conversas com Marcello Caetano (que o marcaram negativamente durante demasiado tempo), pela Peregrinação Interior, pelo seu culto do Brasil e da nossa ligação com a cultura brasileira , pela sua amizade e admiração por Borges, etc, etc, etc.
No meu caso, escolho um dos seus livros – Os Nós e os Laços. O Pedro Mexia já tinha feito essa referencia no seu blogue (Estado Civil): “Os Nós e os Laços (1985) marcou uma viragem (...) no romance português, hoje infestado de “literatura dos afectos” e de afilhadas de Alçada. As pessoas falam muito de O Que Diz Molero ou Os Cus de Judas, mas creio que os Nós e os Laços teve mais influência na escrita portuguesa, marcando uma deriva “débil” que durou vinte anos (ainda dura)...”
Concordo absolutamente com a revolução invisível que Os Nós e os Laços foi, não no romance português, mas no paradigma amoroso dominante e na forma como ele passava na literatura. Só que, na verdade, abriu uma nova visão do mundo dos afectos no contexto português, mas não teve continuadores. Primeiro, porque a generalidade da literatura dos afectos e das afilhadas de Alçada não lhe chega aos calcanhares; depois porque aquele ponto de vista do amor e das suas variações era – e ainda é - muito mais complexo, subtil e revolucionário para a cultura machista e marialva dominante ( mesmo quando de qualidade literária), do que alguma vez os seus epígonos vieram a ser.
E depois era a personalidade do Alçada, e a sua melancólica sabedoria de, por exemplo, não cultivar ódios nem inimigos, antes de mais por ser uma estúpida perda de tempo.
O Dinis Machado não era do “mundo literário”, da literatice, dos protocolos e dos salões. O Dinis era da vida.
Na badana de “ O Que Diz Molero” havia uma citação de Eugénio de Andrade que dizia só: “Este livro é uma alegria”. E esta citação dizia tudo.
“Temos aqui uma anotação, na margem da página catorze, uma anotação feita a lápis”, disse ele. “Diz: coração, bússola doida.” “Literário”, disse Mister DeLuxe, “e, além de literário, devia ser para apagar porque está escrito a lápis”.
Literatura? Literatura menor? Responde William Saroyan: “se o que eu escrevo não é literatura, quem perde é a literatura”.
Na voragem das novidades literárias a que o mercado obriga, no meio da oferta indistinta dos escaparates das livrarias e dos destaques de mil e um livros para esquecer, aqui deixo uma nota contra o esquecimento: dois livros – Os Nós e os Laços e O Que Diz Molero. E dois escritores – António Alçada Baptista e Dinis Machado. Duas personagens para o nosso futuro.


(Crónica publicada no Semanário Económico dia 3 de Janeiro de 2009).

 



Nuno Artur Silva às 05:07 | link do post

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