Sábado, 25 de Abril de 2009

Um ano depois da entrada em vigor da Lei do Tabaco respira-se melhor.
Não sou moralista e detesto falar em nome dos outros. Acho que cada um tem o direito de fumar tabaco ou os aditivos químicos dos cigarros, ou o que lhe apetecer, por vício ou prazer, ou simples reminiscência da fase oral, como substituição da sucção mamária e da sucção no polegar.
Aquilo que mais me impressiona na discussão do consumo de tabaco nos espaços públicos é a absoluta incompreensão que os fumadores revelam do incómodo e prejuízo que causam aos não fumadores. Conheço inúmeros fumadores que são pessoas preocupadas com os outros, muitas vezes militantemente, mas que, pura e simplesmente, não compreendem que o seu fumo incomoda o parceiro, e ficam mesmo indignadas e acusam de fundamentalismo quem lhes faça uma observação no sentido de manifestar esse incómodo. E continua a espantar-me que não percebam que o incómodo não vem unicamente de fumarem ao nosso lado, mas de fumarem na mesma sala. Qualquer pessoa não fumadora e minimamente sensível aos cheiros sabe que basta que uma pessoa fume numa sala para tornar o ar absolutamente insuportável. Já para não falar dos cinzeiros e do chão cheios de beatas tóxicas e nojentas.
Lembro-me que, em tempos, o politico Macário Correia foi crucificado por ter dito a frase “beijar uma mulher que fuma é como lamber um cinzeiro”. Quando há mulheres que gostamos, ou gostaríamos, de beijar não há nada que pare o nosso desejo. Mas a verdade é que homens ou mulheres que fumam cheiram a tabaco na roupa, no cabelo e no hálito, por mais pastilhas elásticas com que o tentem disfarçar.
O meu pai era fumador, cresci numa casa habituado ao fumo e ao cheiro constante dos cigarros. Quando era miúdo, no autocarro em que ia para a escola, fumava-se, nos cinemas e nos teatros fumava-se, fumava-se em todo o lado. Nas aulas da faculdade fumava-se e eram horas fechado em salas irrespiráveis. Hoje isso parece absurdo, quase inacreditável.
Daqui a uns anos (não muitos) vai parecer igualmente absurdo e inacreditável que tenha havido um tempo em que se fumava em restaurantes. E vai haver quem diga: “O quê? A sério? Enquanto outros estavam a comer? Com o fumo todo por cima das comidas? Não?!”.
Acredito sinceramente que o acto de fumar em certos locais públicos vai parecer tão desfasado como hoje nos parece o acto de cuspir para o chão ou de urinar na via pública.
Não sou a favor, claro, da proibição nem do tabaco nem das drogas leves. Simplesmente defendo que deve haver cada vez mais espaços públicos livres de fumo. Essa deve ser a regra e as excepções devem ser espaços muito específicos.
Ao fim de quarenta e cinco anos a ter de levar com o fumo dos outros em cima, em todo o lado já era tempo de poder respirar à vontade. Será que os fumadores percebem isto ou sera preciso, talvez, dizê-lo por sinais de fumo?

 

(Crónica publicada no dia 10 de Janeiro de 2009 no Semanário Económico).

 



Nuno Artur Silva às 05:08 | link do post

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