Sábado, 25 de Abril de 2009

Esta semana a PT anunciou que, no final de 2009, 80% da população poderá aderir ao serviço da TDT e Portugal poderá fazer a transferência de sinal analógico para digital antes do deadline europeu de 2012, “algures em 2011”, como adiantou o ministro Mário Lino.
São excelentes todas as notícias sobre o investimento e empenhamento do governo e das empresas nas TIC. Se há uma prioridade absolutamente inquestionável no serviço público é a de ligar todos os cidadãos e de tornar acessíveis os serviços e os conteúdos para todos os portugueses.
Era preciso que houvesse um investimento semelhante para a criação, produção e promoção de conteúdos em Língua Portuguesa.
Esta foi também a semana dos Globos de Ouro. É preciso perceber este culto dos prémios num contexto maior que é, o da celebração da indústria. Dizer que uma série é melhor que outra é uma arbitrariedade. A produção artística não é uma competição desportiva, mas é um grande momento de percepção das linhas de força do audiovisual, das ficções e, de forma mais profunda, dos temas, das personagens, das inquietações de uma época.
Não há em Portugal nenhuma iniciativa para premiar a indústria dos conteúdos, particularmente dos conteúdos televisivos. As tentativas anteriores acabaram por se fechar numa lógica de promoção de uma única estação, e num desfile de celebridades de ocasião, forçado e vazio. Pode ser um pormenor ridículo, mas era importante criar uns prémios equivalentes em Portugal, que destacassem o pouco que se vai fazendo. Talvez a RTP pudesse tomar a iniciativa e juntar todos os distribuidores e produtores.
É verdade que não há propriamente uma indústria audiovisual em Portugal. Entre um cinema excessivamente dependente de subsídios estatais, que não encontrou ainda novas formas de financiamento, nem soube criar novos públicos, e uma televisão onde quase não há produtores independentes e onde os grandes produtores ou são sucursais de multinacionais ou são as próprias estações, a paisagem é quase deserta.
Para existir uma indústria de conteúdos é preciso não só uma série de mudanças no processo de produção e financiamento mas, antes de mais, uma mudança de mentalidades que eleja a criação audiovisual como uma prioridade nacional, mais importante que a TDT. De que adianta termos as auto-estradas se não investimos nos automóveis que nos podem levar para todos os sentidos que queremos, se me é permitido abusar da metáfora.
O Ministério da Cultura declararou que a Língua Portuguesa é o nosso maior património e o Governo anunciou um fundo da Língua, que se desdobrará numa série de iniciativas. Óptimo. Mas é essencial perceber que não há política da Língua sem política para o audiovisual. E nessa estratégia é fundamental rever as formas de financiamento, perceber claramente qual o papel do ICA e do FICA, e sobretudo envolver todos os players numa grande discussão, que devia ser um desígnio nacional. As redes de nova geração têm de ser redes de novos conteúdos.


(Crónica publicada dia 17 de Janeiro de 2009 no Semanário Económico).
 



Nuno Artur Silva às 05:09 | link do post

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