Sábado, 25 de Abril de 2009

Comecemos pelo termo “indústria”, uma expressão que à partida incomoda muita gente
do sector, designadamente os “artistas” (designação que por sua vez, à partida,
incomoda, claro, os “industriais” do sector). Este mútuo incómodo é sintomático.
Antes de mais deveríamos pensar se é necessário que exista uma indústria audiovisual portuguesa. A minha opinião é sim, sem hesitação.
A arte e os artistas hão-de sempre existir no coração da indústria ou nas suas margens, contra a indústria, resistindo a ela, ou na linha da frente da produção comercial, inovando e abrindo novos caminhos.
O que tem faltado em Portugal não é arte, nem artistas, o que falta é meios, produção regular, modelos de negócio articulados, sustentáveis, diversificados e duradores, ou seja, em termos gerais, indústria. E a promoção e divulgação dos conteúdos dessa indústria, isto é, aquilo que tem a ver com a dimensão mais espectacular e pública do audiovisual e que devia ser, sem rodeios, uma prioridade nacional.
E por que é que (ainda) não existe indústria audiovisual portuguesa? Eu diria que tudo começa com o divórcio entre o cinema português e as televisões portuguesas.
O cinema português tem sido predominantemente um cinema dito de autor, de um autor-realizador que tem centrado em si todo o poder e toda a opção criativa, desde a primeira hora. Os argumentistas, quando existem, são convidados para escrever o filme que o realizador quer escrever e não consegue. O resultado normalmente é um híbrido em que ninguém fica realmente satisfeito. (Com as honrosas excepções, que têm feito a história do cinema português, em que a visão de um ou outro realizador cria um artefacto visual lírico, pessoal e original).
Por outro lado, na televisão portuguesa, com a única excepção da relativamente recente produção de telenovelas (o único sector específico onde se pode dizer que há um princípio de indústria), o domínio tem sido dos programas de entretenimento. As vedetas não são os actores, os actores a sério, e muito menos o poder criativo está na mão dos autores. As vedetas, e quem tem o poder decisivo, são apresentadores e sex symbols do trimestre e directores de programas que decidem quais deles é que devem estar no ar.
A título de exemplo, veja-se o livro “RTP 50 Anos de História” de Vasco Hogan Teves,
onde se faz a história da RTP omitindo praticamente todos os autores e destacando de
maneira sistemática os apresentadores e afins. Ironicamente podemos dizer que é um
excelente retrato da televisão em Portugal, na medida em que reproduz aquilo que ela
mais tem sido: uma televisão de entretenimento ligeiro, sem uma produção regular,
diversificada e marcante de ficção ou documentários, uma televisão que nunca foi o que
devia ser: a grande impulsionadora de uma verdadeira indústria de Ficção.
O que falta? Histórias. Faltam condições para que elas possam ser escritas e produzidas.
Acabo, por agora, como nas séries antigas: não perca a continuação desta argumentação
na crónica da semana que vem.


(Crónica publicada dia 24 de Janeiro de 2009 no Semanário Económico).

 

 



Nuno Artur Silva às 05:10 | link do post

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