Sábado, 25 de Abril de 2009

A multiplicação de canais, privados e públicos, nacionais e regionais, sob a forma de televisão convencional ou de outros modelos agregadores de conteúdos é irreversível.
O surgimento de um quinto canal generalista em 2009, para emitir em 2010 (ainda que sem cobertura total), é simplesmente um acelerador desta tendência. E nesse sentido é positivo.
A grande questão é: que quinto canal queremos fazer? As duas propostas apresentadas, pelo que a imprensa revelou, são radicalmente diferentes.
Uma, apresenta-se com o mesmo pressuposto, posicionamento e modelo dos privados já existentes, parecendo aliás uma candidatura para o concurso de há 16 anos atrás. Não sendo substancialmente diferenciadora, só será viável se acabar com um dos outros canais privados generalistas.
A outra proposta, sem deixar de se apresentar como um canal generalista, não se posiciona para ocupar o espaço da SIC ou da TVI. O impacto desse novo canal é, assim, relativo e sê-lo-á cada vez mais.
Não se pode, hoje em dia, pensar um canal de televisão em função de uma grelha de emissão. Um canal de televisão tem de ser pensado como uma multi-plataforma de conteúdos, ou seja, menos como um canal e mais como uma estação.
Quando falamos de uma nova estação, estamos a falar essencialmente de duas grandes áreas de emissão e produção: informação e ficção (incluindo nesta todas as variáveis de entretenimento).
A produção de ficção é muito importante e deve ser decisiva para a marca de um canal. Mas a questão fundamental da criação de um novo canal generalista é, sem dúvida, a informação. Essa é aliás a questão central dos media contemporâneos: aquilo que está em jogo no imediato, não só com o quinto canal mas com todos os media, é a existência de jornalistas e de uma informação independentes e fortes.
Sabemos que a informação é cara e que a manutenção de uma grande redacção permanente é o peso maior na existência de uma estação. Mas a verdade é que não é necessário que o modelo de informação seja esse.
Da mesma maneira que a produção de ficção deve ser articulada com produtores independentes, a produção de informação pode ser articulada com jornalistas independentes. O que é necessário, neste caso, é uma pequena redacção de perfil essencialmente editorial, muito ágil, capaz de se articular em rede com jornalistas individuais, agências ou outras estruturas de deontologia e qualidade inatacáveis. As sinergias podem ser feitas, inclusivamente, com outras estações de televisão, existentes ou a existir, ou, melhor ainda, com jornais que na actual transição do papel para o online, se podem revelar parcerias perfeitas.
Esta é a grande questão do futuro dos media, não só em Portugal mas no Mundo: encontrar um novo modelo que melhor garanta o poder e a independência que precisamos que o jornalismo, cada vez mais, tenha. A vinda de um quinto canal é um óptimo dinamizador da experimentação de respostas para esta necessidade.


(Crónica publicada no Semanário Económico dia 31 de Janeiro de 2009).

 


 



Nuno Artur Silva às 05:11 | link do post

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