Sábado, 25 de Abril de 2009

A propósito do quinto canal, como a propósito da televisão em geral, o debate tem sido centrado em questões de viabilidade económica, de mercado e de publicidade: tudo questões decisivas para a existência de um canal. É certo que os tempos do “é a economia, estúpido” estão mais presentes que nunca, ainda que agora na sua versão “é a crise, estúpido” (e sempre com o seu alter-ego “é a política, sempre a política, estúpidos”), mas é curioso que ninguém fale daquilo que é, no fundo, a vocação de um canal: os conteúdos. A ausência desta discussão tem a ver com a ausência geral de discussão significativa e continuada sobre o que é, precisamente, o centro da informação e do lazer dos portugueses: os conteúdos audiovisuais e multimédia.
Quanto ao quinto canal, partindo do princípio que ele é irreversível, o que é que faz sentido que ele seja?
Um canal de entretenimento e ficção de baixo orçamento, que possa fazer sinergias na área da informação, que possa exibir produção estrangeira de produtores fora das grandes majors e, sobretudo, que crie uma rede de co-produções com os produtores portugueses, estimulando os contratos-programa e a articulação imaginativa com os anunciantes.
Ou seja, o quinto canal não tem que vir combater directamente a SIC, a TVI ou a RTP generalistas, ele tem que vir posicionar-se num nicho de mercado, de forma diferenciada, isto é, programando para os targets que neste momento, apesar do seu nomadismo natural, estão mais disponíveis para ele: os A’s e B’s e os jovens. O quinto canal podia ser, deste ponto de vista, uma espécie de SIC Notícias do entretenimento.
Podemos discutir muito a viabilidade económica, mas o que faz mover o mercado são novas ideias e novos programas, que de facto se demarquem do que já existe e criem, e saibam manter, novidade e comunidade: é disto que é feito um canal.
Permitam-me uma nota mais pessoal. Trabalho em televisão há quase 20 anos e lembro-me de inúmeros programas que se dizia serem incapazes de captarem público, mas que passado um tempo se vieram a revelar não só viáveis como rentáveis e muito apetecíveis por parte dos anunciantes.
Desde logo, há o exemplo evidente das telenovelas portuguesas, que, diziam, nunca destronariam as brasileiras. A mim, e a quem comigo trabalhava, disseram-nos que o Spitting Image em Portugal nunca funcionaria, e o Contra-Informação, ao fim de quase 14 anos, continua a ser um dos programas mais marcantes e populares; disseram-nos que o Herman estava acabado, antes de ele fazer o HermanEnciclopédia e inventar uma dezena de personagens que ficaram na cultura popular, disseram-nos que a stand up comedy nunca pegaria em Portugal, e agora há uma nova geração de comediantes que vieram do stand up, disseram-nos, vários “especialistas” de marketing, que o Gato Fedorento era uma coisa de nicho, só para míudos, etc, etc, etc.
Não me falem de mercado ou de viabilidade, televisão é conteúdo e estratégia para esse conteúdo. O resto vem atrás.


(Crónica publicada no Semanário Económico dia 7 de Fevereiro de 2009).

 


 



Nuno Artur Silva às 05:12 | link do post

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