Sábado, 25 de Abril de 2009

Segundo o Observatório Europeu do Audiovisual, Portugal é o país europeu em que os espectadores de cinema menos vêem filmes nacionais. Cito a notícia do Público desta semana: “a quota de mercado das produções portuguesas de cinema atingiu em 2008 2,5% do total da audiência de filmes em salas de cinema. Este é o valor mais baixo entre 19 países da União Europeia e 4 não membros (...). O país mais próximo é a Bulgária, com uma quota de 4,8 cento. A Espanha chega aos 14,2...”
A notícia não diz, mas Portugal deverá ser também um dos países cujos filmes são menos vistos fora do seu território.
Se observarmos o que se passa nas televisões portuguesas verificamos que aparte o kitsch monocórdico das telenovelas e os, apesar de tudo, mais diversificados programas de humor de sketches, o panorama da ficção portuguesa é também desolador: não há telefilmes nem séries originais portuguesas em número, diversidade e qualidade dignos de registo.
A produção audiovisual é um dos sinais de vitalidade de uma cultura e de uma língua. Um país pensa-se e desenvolve-se nas suas ficções. Se não há filmes e séries com os temas e as personagens locais, a paisagem fica mais pobre.
O que falta para mudar esta situação? Histórias. E autores para as contar. Mas o problema não está tanto na ausência de argumentistas quanto na falta de produtores e de incentivos para a existência desses argumentistas e dessas histórias.
Hoje em dia, em Portugal, começa a haver uma mudança no sistema de financiamento do cinema, começam a surgir novos produtores, mas a mentalidade ainda não mudou e corremos o risco de substituír o anterior modelo de cinema de autor, em que todo o poder estava concentrado na figura do realizador, por outro em que ele está concentrado no produtor mas onde o argumentista continua a não ser respeitado.
Robert McKee diz que o primeiro autor de um filme é o argumentista. Aliás, ele diz que o único autor é o argumentista. Todos os outros são intérpretes desse argumento. Sendo o realizador o grande maestro e orquestrador. Nas melhores séries de televisão americanas o autor é também produtor e é o director criativo do projecto.
Quando comecei a trabalhar como guionista de televisão, no início dos anos 90, estive numa reunião na RTP, para a produção de um especial de entretenimento. E não me esqueço que um dos produtores do programa perguntou, na reunião, se era realmente preciso um guionista. Isto aconteceu há menos de vinte anos e é revelador . Desde aí houve uma melhoria, os argumentistas passaram a não ser confrontados com a utilidade da sua existência, mas a verdade é que ainda têm um papel subalterno na cadeia de produção.
É preciso criar condições para que se escrevam boas histórias, bons argumentos de cinema ou de televisão. Ou seja, é preciso investir, antes de mais, na escrita. E nos escritores. Mas antes de tudo é preciso que os escritores tenham histórias para contar e vontade, engenho e determinação para encontrar a melhor maneira de as contar.

 

(Crónica publicada no dia 14 de Fevereiro de 2009 no Semanário Económico).

 



Nuno Artur Silva às 05:13 | link do post

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