Sábado, 25 de Abril de 2009

Nasci em 1962 e fui educado numa escola pública, na transição do salazarismo para a cinzenta primavera marcelista, onde havia retratos do Salazar e do Américo Tomaz, e rezávamos no mês de Maio. O professor batia-nos com uma cana na cabeça e éramos obrigados a decorar os caminhos de ferro das colónias. O que nos valia era o futebol nos intervalos. E a televisão.
Em minha casa havia livros da Colecção Vampiro e o jornal A Bola. E eu lia muita banda desenhada. O Mundo de Aventuras e, religiosamente às quintas-feiras, a Revista Tintin, (a verdade é que eu lia tudo o que me aparecia à frente) mas o centro de entretenimento da família, a nossa lareira, à volta da qual nos reuníamos todas as noites, era a televisão.
Era uma televisão a preto e branco e o único canal que se podia ver era a RTP.
A RTP era, claro, uma televisão salazarista, com uma informação censurada, e era um instrumento do regime. Mas, apesar disso, foi pela RTP que eu e a minha geração espreitámos o Mundo.
Não o fizemos tanto pela informação mas fizemo-lo através dos filmes, das séries, dos documentários que nessa altura podíamos ver a toda a hora.
Foi na RTP, no horário nobre, que eu vi o melhor cinema americano e muito cinema europeu, vi o John Ford e o Hitchcock, vi os Monty Python e o Get Smart, vi o Colombo e o Espaço 1999, vi os desenhos animados da Warner Brothers, etc, etc, etc.
Não sou saudosista, muito menos daquele tempo, mas a verdade é que quando olho para o horário nobre das televisões generalistas não deixo de sentir que o panorama é um retrocesso, sobretudo em relação aos anos a seguir ao 25 de Abril, quando a censura acabou e pudemos ver ainda muito mais.
Imaginemos que somos crianças, e que a televisão lá de casa só tem a RTP 1, 2, SIC e TVI. Que filmes, que séries, que programas temos para ver? O que é que está a estimular a nossa imaginação e a nossa curiosidade pelo Mundo? O que é que temos para ver que nos inspire?
É certo que há mais produção em português, mas com que conteúdos? E com que variedade? E a possibilidade de ver o melhor que está a ser feito no Mundo? Onde encontramos esses programas agora, se não tivermos oportunidade para ter acesso à net ou a conteúdos exclusivos?
Apesar de tudo, a RTP1 oferece-nos, como é sua obrigação, um pouco mais de variedade, e a RTP2 também se esforça, mas continua tão pobrezinha, entalada nas obrigações dos inúteis programas da “sociedade civil”. E quanto aos privados generalistas? O que há para além das telenovelas, que reduzem a ficção a um incessante desfile palavroso de lugares comuns, e das séries juvenis que limitam a adolescência a uma vida de engates e mexericos sobre quem anda com quem?
Não tenho dúvidas que, tirando os programas de informação e os grandes especiais, os canais generalistas hoje representam o pior da televisão. Felizmente, são cada vez menos generalistas.
Uma das prioridades nacionais deveria ser a garantia de multi-canais e internet para toda a população.

 

(Crónica publicada dia 21 de Fevereiro de 2009 no Semanário Económico).



Nuno Artur Silva às 05:15 | link do post

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