Sábado, 25 de Abril de 2009

As comédias portuguesas dos anos 40 tinham sempre uma cena em que acabava tudo na esquadra, era: “Tudo para o Torel!”. A versão contemporânea não é muito diferente. Acaba tudo no tribunal: “Tudo para a Boa Hora!”. (Enquanto não for transformado num hotel e continuar a ser um “tribunal de charme”.)
Para não variar, parece ser num qualquer tribunal da Boa Hora, mas daqui a muito tempo, que se vai decidir o caso do quinto canal. (Como a TDT, aliás.)
É já uma tradição portuguesa o tempo que tudo demora a acontecer, sobretudo nesta área. Foi assim com a privatização dos canais: demorou demasiado tempo e foi mal feita (um canal para a Igreja? Por amor de Deus!). E sem caderno de encargos?!
Foi assim com o cabo, que começou tarde e com um modelo muito discutível, que só agora começa a ser corrigido.
Foi assim com a remodelação da RTP, que demorou décadas para saír de instalações provisórias, etc, etc, etc.
E agora é assim com o quinto canal e mais este impasse.
Mas os media, no entanto, movem-se. A tecnologia e a criatividade mudam mais depressa que os instintos proteccionistas, controleiros e burocráticos. E com a banda larga, a fibra óptica e as redes de nova geração, o quinto canal, mesmo sendo de sinal aberto, é só mais um operador na complexa rede da paisagem audiovisual.
Entretanto já surgiu mais um canal de informação, o terceiro num país com a dimensão de Portugal. É certo que estes canais de notícias são, de certa forma, um prolongamento dos canais generalistas já existentes. E só isso os torna relativamente viáveis. Mas três canais? E já agora, um novo jornal que se anuncia em plena crise, será viável? Na mesma altura em que se anunciam dramáticos despedimentos num outro grupo de comunicação?
A verdade é que não sabemos. Mas se há empresários dispostos a arriscar, a única coisa que temos de defender é que tudo seja feito de acordo com as regras básicas de deontologia e regulação, a todos os níveis, incluindo os direitos dos trabalhadores.
A concessão de um canal em sinal aberto é a cedência de um bem público. O Estado tem por obrigação promover a diversidade nos conteúdos dos media. Não percebo que, havendo esse espaço, esse espectro, ele não seja usado.
Viabilidade? Quem diria que era viável a SIC ultrapassar a RTP e chegar aos 50% de share? Quem diria que a TVI ia chegar depois à liderança? Quem diria que os canais generalistas perderiam quase metade da sua audiência nos últimos 10 anos? Etc, etc, etc.
E quantos de nós estão a deixar de ver os canais generalistas? Já repararam na maneira como as novas gerações vêem “televisão”? E já agora: as pessoas seguem cada vez menos os canais e cada vez mais os conteúdos específicos, sem se preocuparem muito com o canal onde podem vê-los. Dá que pensar, não é? Etc, etc, etc.


(Crónica publicada dia 28 de Fevereiro de 2009 no Semanário Económico).
 



Nuno Artur Silva às 05:16 | link do post

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