Sábado, 25 de Abril de 2009

O Alexandre O’Neill dizia que em Portugal a aventura acaba sempre na pastelaria. A pastelaria normalmente é uma daquelas com luz fluorescente e balcões de alumínio onde sobrevivem fritos e bolos de há uma semana. Costuma haver um grelhador roxo de moscas e a televisão está sempre ligada nos infindáveis talk shows da tarde. O cheiro predominante é ainda o do fumo dos cigarros.
É nessa pastelaria ou, em grande escala, no centro comercial que observamos os casais e as famílias, numa espécie de romaria entristecida que é realidade e metáfora do lento naufrágio dos nossos mais acalentados sonhos de amor. Como é que se chega a este desacerto?
É claro que esta é a versão portuguesa de um caso comum à sociedade ocidental, a questão é: de que maneira é que as pessoas vivem aquilo que devia ser uma das dimensões mais exaltantes da sua vida - a relação amorosa. Ou, doutra maneira, o que fazer quando a fantasia do desejo, que é a paixão, se extingue? Como viver com as cinzas dessa fulguração?
Há uma canção da Patricia Barber que pergunta:
Can the perfect wife fake one more night?
Can she joke and laugh and dance without the fire?
Como sobreviver à extinção desse fogo? A questão não é nova e tem sido muito teorizada.
La Rochefoucault dizia que “Pessoas há que nunca se teriam enamorado se nunca tivessem ouvido falar de amor.”
Nos mitos de hoje já não há nem o “felizes para sempre” nem o “amantes na eternidade”. Já não há tragédias e a figura de estilo dominante da nossa sociedade é a ironia, o que quer dizer que se tornou impossível estarmos apaixonados por uma pessoa sem termos, digamos, consciência mítica e mediática dessa situação e dos seus rituais. Ou seja, estamos sempre a ver-nos de fora e, por instinto de defesa ou deformação da sociedade de espectáculo, a ironizarmos sobre nós próprios.
É neste contexto, acelerado pelas tecnologias e pelos novos comportamentos, que temos de enquadrar as novas relações duradouras e, em particular, o futuro de uma instituição como o casamento. O casamento, como centro de uma organização familiar e social, deve ser visto fora do espartilho tradicional. Aliás a inevitável legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo é, neste quadro, como muito bem observou a jurista Teresa Beleza num artigo publicado no Público desta semana, um contributo para a preservação dessa instituição.
O que está a ser fascinante é observar como as diversas nuances de enamoramento, paixão, amizade e amor se esbatem e multiplicam num mundo de possibilidades onde predominam as redes sociais e onde o virtual cada vez mais se sobrepõe ao real físico. (Como aliás sempre aconteceu com a literatura.) Começa a ser frequente as pessoas preferirem conviver online e tirarem mais prazer dessa virtualidade do que propriamente do contacto real e, muitas vezes, do próprio contacto sexual.
Temos de partir dessas pastelarias virtuais para novas aventuras.

 

(Crónica publicada dia 7 de Março de 2009 no Semanário Económico).
 



Nuno Artur Silva às 05:17 | link do post

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