Sábado, 25 de Abril de 2009

Os anos 60 em Portugal foram nos anos 80. Depois da bebedeira política, festa e ressaca, 25 de Abril, PREC e guronsan da normalidade democrática, nos anos 80 emergiu uma cultura jovem e cosmopolita. As artes plásticas, a moda, o jornalismo e a música pop, o Bairro Alto e os bares, geraram os primeiros artistas e ídolos pop em Portugal, pós Eusébio e Amália.
No humor, duas grandes figuras fizeram mudar o paradigma e ofuscaram tudo. Na televisão, Herman José, nos jornais, Miguel Esteves Cardoso.
É claro que havia outros. Na televisão, à margem de um humor mais datado e popular, havia a figura solitária de humorista lírico do Raul Solnado e o humor de farsa italiana na linha de Tótó, do Nicolau Breyner, que abriram caminho para a revolução monty pythiana do Herman. Nos jornais havia José Sesinando e os cartoonistas Sam, António e Cid. No teatro, o carisma de Mário Viegas. Na literatura, não sendo exactamente humoristas, tínhamos tido a originalidade surreal do Mário Henrique Leiria e a libertinagem de Luís Pacheco. Tínhamos o Dinis Machado e o Mário Zambujal. E na poesia tínhamos O’Neill, Cesariny, e o Alberto Pimenta que, na Universidade Nova, organizou a Pornex com o Rui Zink. Na rádio aconteceu o Pão com Manteiga. No cinema tínhamos a personagem do Artur Semedo e a do João César Monteiro. Depois, da música pop, viria o Manuel João Vieira, com os Ena Pá 2000 e os Irmãos Catita. E dos jornais, mais tarde, veio o Júlio Pinto com o Fiel Inimigo.
Mas a esta distância, salvaguardada a qualidade dos referidos, mesmo sabendo que havia outros, para 30 anos sabe a pouco.
Em cada época os novos humoristas surgem no meio de comunicação emergente: no início do século XX, Chaplin, Keaton ou os Marx surgiram no cinema. Depois vieram os dias da rádio, e os anos 60 foram a década da televisão. Nos EUA houve um boom de comediantes e sitcoms e do período de ouro da BBC acabaram por surgir os Monty Python. Depois abriu-se o caminho para a diversidade, com a multiplicação de canais no cabo.
Cá em Portugal, fruto da ditadura e de um único canal, o humor surgia nas entrelinhas do teatro de revista ou nas revistas do Vilhena. Mas mesmo depois do 25 de Abril, os únicos palcos para os humoristas eram os cafés-teatros das companhias independentes. A RTP estava ainda muito fechada à novidade e depois os privados reproduziram essa inércia. Havia actores cómicos mas quase não havia autores e projectos originais. O Herman reinou praticamente isolado na TV.
Hoje parece-nos inverosímil mas a verdade é que quando o Rui Veloso, os UHF ou os GNR começaram a cantar rock em português, havia quem dissesse que soava mal e que não havia mercado para eles. O que não só era mentira (mesmo no caso dos UHF) como absolutamente contrário ao que é hoje a multiplicidade de propostas e públicos dos músicos pop portugueses. O que aconteceu nos anos 80, com o rock, só agora aconteceu no humor: o surgimento de uma nova geração de comediantes. É deles que gostava de falar para a semana.


(Crónica publicada dia 21 de Março de 2009 no Semanário Económico).

 

 



Nuno Artur Silva às 05:19 | link do post

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