Sábado, 25 de Abril de 2009

Foi preciso chegar a um novo século para, finalmente, começarmos a ter uma geração de novos comediantes, pujante e diversificada. Não unicamente actores nem escritores que aqui e ali façam derivações pícaras ou humorísticas, mas humoristas profissionais, comediantes.
Isto só foi possível com a net. Pela primeira vez, os comediantes não estão dependentes da opinião de 2 ou 3 directores de programas e mais 2 ou 3 directores de jornais, que decidem o que é ou não engraçado, em Portugal.
Directamente, nos blogues e depois no YouTube, passou a ser possível mostrar o trabalho escrito ou representado, sem espera nem adulteração.
Hoje há, finalmente, novos humoristas que são da mesma geração dos seus públicos jovens, que os seguem, cada vez mais, mais do que na televisão, nos blogues, no YouTube ou Sapo Vídeos, nas redes sociais...
Esta vitalidade e diversidade gera qualidade. Mas para que essa qualidade exista cada vez mais é preciso que os comediantes tenham condições para desenvolver o seu trabalho. Como costume, as televisões e os anunciantes, em Portugal, demoram muito tempo a perceber isto. As televisões só apostam a sério nos comediantes quando eles já são populares. Há excepções, claro. A Sic Radical que tem aberto e continua a abrir a antena, embora sem grande investimento. A RTP, que investiu no Gato Fedorento e agora n’Os Contemporâneos ou no Tele Rural. Mas é pouco. Apesar de estar provado que arriscar pode compensar, e muito. É incompreensível que não haja nenhum talk show português de comédia em nenhum canal. Ou que a RTP2 não invista em formatos de humor ou similares. (Veja-se a qualidade e a influência dos talk shows como o do Jon Stewart nos EUA.) O Sapo tem investido no humor, mas é muito difícil encontrar patrocínio para um conteúdo de humor em Portugal. Os anunciantes têm um temor reverencial pelas tutelas e tomam quase sempre o público por parvo. E não há meio de se convencerem que certos vídeos são já muito mais vistos, na internet, do que na televisão.
Pergunta-se muito se existe um humor português. Mas o humor não tem nacionalidade, tem a marca da Língua e da cultura onde se inscreve. E quando tem qualidade, sentido interventivo e traz inovação valoriza a cultura e a sociedade a que pertence. Os Gato Fedorento e o Ricardo Araújo Pereira, são excelentes a desmontar os clichés do linguajar português. Não sei se são humor português. So what? Talvez exista uma especificidade portuguesa, uma variante do fado que é o humor melancólico. Ele tem expressão em O’Neill ou nos aforismos melancómicos do Nuno Costa Santos. Talvez ele esteja sintetizado no João de Deus de César Monteiro, ou no Programa do Aleixo . Mas, mais do que um humor português, o que existe é uma crescente variedade de novos humoristas, informados e influenciados pelo melhor que se faz no mundo, à procura da sua voz própria. Depois das novas fadistas, é tempo para os novos humoristas.


(Crónica publicada dia 28 de Março de 2009 no Semanário Económico).
 



Nuno Artur Silva às 05:20 | link do post

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