Sábado, 25 de Abril de 2009

Participei esta semana num encontro para discutir os problemas do teatro no contexto da Cidade (de Lisboa) e para perceber qual deve ser o papel da Câmara.
Jorge Silva Melo fez uma intervenção, brilhante como é costume (e continuo a não perceber como é que não lhe dão um programa na RTP2 para falar sobre teatro e cinema) em que falava do teatro nas aldeias, como festa e celebração, e do teatro na cidade, onde os cidadãos delegam nos actores a representação das personagens. Falava o Jorge da dignidade do trabalho do actor e no advérbio “diariamente” como designação mais exacta dessa resistência contra todas as arbitrariedades do poder.
É uma bela e romântica visão do trabalho dos actores.(Mas será que esse Poder pode ser assim tão claramente identificado e delimitado, hoje? Será que dizer o Poder e dizer que somos Contra-Poder não é uma generalização romântica que ilude “diariamente” a realidade?)
Tal como os actores, os políticos também são cidadãos nos quais outros cidadãos depositaram a representação. Outro tipo de representação. O tipo de poder que cada um exerce não é, de todo, o mesmo. Mas o efémero poder dos actores pode ser muito mais duradouro.
Só que esse poder precisa de palco e de condições – que os actores políticos têm de propiciar.
As grandes companhias que surgiram logo depois do 25 de Abril acabaram por conquistar os seus espaços e têm contratos de longa duração com a CML. São as gerações seguintes que ainda lutam para ter espaços próprios.
Não deve ser papel da CML dirigir o gosto e as escolhas teatrais da cidade, mas é essencial que ela facilite, promova e incentive a diversidade teatral. Para além dos teatros municipais, a CML deve ceder outros espaços e interceder junto de outras instituições para que elas os cedam também, p.ex. património da Igreja Católica ou das Forças Armadas, que tantos espaços possuem sem serem usados.
Mas não é só abrir “teatros”, é garantir as condições mínimas para que possam existir: equipamento, acessibilidade, segurança, divulgação e sinergias locais e nas diversas redes urbanas. Miguel Seabra, do T. Meridional, falou da responsabilidade das companhias, nomeadamente no sentido de melhorarem aquilo que tem sido a sua maior fragilidade: a produção. Mas falou com mais veemência da dificuldade de comunicação com a própria CML, do tempo e esforço dispendidos para que a mais básica das colaborações aconteça.
A CML tem que mudar de atitude: criar uma linha directa com os artistas, simplificar os procedimentos e apoiar, de maneira clara, as iniciativas artísticas que “diariamente” contribuem para enriquecer a cidade.
Há uma coisa que o Jorge disse com a qual eu não concordo nada. Ele diz que a cidade está a morrer. A cidade não está a morrer, está a mudar, e há um novo teatro a surgir por todos os seus poros. Um teatro com novas questões, um teatro na era da reprodução das comunidades virtuais. É preciso abrir espaços e dar condições para que esse teatro nos venha representar.


(Crónica publicada dia 4 de Abril de 2009 no Semanário Económico).



Nuno Artur Silva às 05:21 | link do post

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