Sábado, 25 de Abril de 2009

Como dizia um escritor que saiu de moda, interessa-me imenso o futuro, porque é lá que eu vou morar.
O meu trabalho nas Produções Fictícias é, essencialmente, um trabalho de perscrutação, experimentação e antecipação - na cultura e nas práticas de lazer - dos novos movimentos da ficção, da representação, do humor, do entretenimento, etc.
Sendo uma espécie de produtor de ideias e projectos, gosto muito de ver novos autores e perceber neles a novidade, a originalidade, se vão ou não criar um estilo, deixar marca.
Com o tempo, tenho vindo a ganhar experiência na detecção e no despiste desses casos e de casos que não são esses.
Fascinam-me sempre as histórias dos pioneiros, dos iniciadores de movimentos, quase tanto quanto me maravilham as histórias dos que passaram ao lado, mesmo à tangente de serem grandes, por causa de uma decisão errada, de uma má avaliação. O baterista que saiu dos Beatles por que achou que eles não iam a lado nenhum, o professor de matemática do Einstein que lhe disse que ele era um zero à esquerda, o tipo da IBM que se riu do Bill Gates e do projecto de desenvolver computadores pessoais, o tipo que disse ao Santana Lopes que ele devia ser vendedor de automóveis em segunda-mão… (ou líder político? Já não me lembro).
Eu próprio já tive a minha dose de avaliações estrondosamente erradas. Normalmente, falha-se quando não se está a ver bem o filme. E o filme, aqui, é o filme das nossas vidas na sociedade contemporânea. É um filme de ficção mais ou menos científica, de antecipação.
As perguntas que queremos saber são as clássicas: quem somos? Para onde vamos? Qual o futuro da Humanidade? Mas em versões mais prosaicas, palpáveis e interessantes: Em que heróis vamos acreditar? Que histórias nos vão inspirar? Como nos vamos divertir? O sexo vai ficar fora de moda? Ou melhor, o sexo com outras pessoas vai ficar fora de moda?
Um criador procura estar sempre na linha da frente da inovação, por isso está sempre atento ao mundo que o rodeia (Isto é uma mentira. Todos os criadores, que conheço, quando muito estão atentos aos pequenos círculos concêntricos que rodeiam o seu umbigo).
Um criador vive profundamente o seu tempo, seja ele qual for. Conheço criadores que vivem no século XIX, outros no século XX, outros no século XXI, mas no Suriname, ou em Neptuno, ou em 1968, da parte da tarde.
Um produtor, um gestor de marca, um agente ou um player (um jogador?) da sociedade da comunicação e do mercado dos conteúdos tem mesmo de estar na linha da frente, atento ao mundo que o rodeia e particularmente atento à linha da frente do mundo que o rodeia.
Para saber o futuro, antigamente, viam-se as entranhas dos pássaros, deitavam-se as cartas ou tomava-se um café com o professor Marcelo. Hoje fazem-se muitos estudos, contratam-se empresas de consultadoria, especialistas em marketing, marcas e mercados... O que é divertido é que tudo isso não vale uma boa ideia. Uma boa ideia nova posta em prática é a única coisa que muda realmente o futuro.

 

(Crónica publicada no dia 11 de Abril de 2009 no Semanário Económico).
 



Nuno Artur Silva às 05:24 | link do post

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