Sábado, 25 de Abril de 2009

Picasso dizia que pintar no século XX era pintar todos os géneros (e foi o que ele fez). Escrever no século XXI é, cada vez mais, escrever todos os géneros.
É claro que há tantos entendimentos do que seja a literatura quantos os escritores que existam. E se há escritores que são uma voz de resistência a toda a contaminação da literatura por outras artes e, sobretudo, pelos media, outros há, cada vez mais, que se posicionam como actores da escrita, em múltiplos papeis, nos diferentes meios.
Uma das questões centrais na discussão do que é a literatura hoje é a do futuro do livro. Tal como com os jornais, o que se pergunta é se há futuro para o livro em papel, num tempo em que se vão multiplicando os mecanismos electrónicos de leitura, tipo Kindle.
E tal como na indústria musical, que tem sido pioneira na mudança tecnológica e consequente mudança de hábitos de fruição e consumo, a indústria do livro também está a mudar.
Poderá acontecer com os livros aquilo que já está a acontecer com os livros de poemas e com os cds. Os livros vão-se tornando objectos de colecção. Os textos estão disponíveis na net, podem mesmo ir ficando disponíveis de forma incompleta, como se fossem faixas musicais. O que vai ser valorizado nos livros são as edições limitadas, eventualmente assinadas e adquiridas em livrarias especializadas. Como na música já acontece. Há editoras que vivem de reeditar raridades com tiragens muito baixas, só para coleccionadores. (“Os livros são objetos transcendentes / Mas podemos amá-los do amor táctil” – Caetano Veloso).
Paralelamente, tal como os músicos nos seus concertos, os escritores têm as suas digressões e os seus eventos ao vivo: leituras, conferências, e mesmo jam sessions, leia-se participação em debates.
O escritor ermita que comunica unicamente com o seu editor continuará a existir, claro, com a sua excepção e a sua aura. Mas a regra não escrita dos escritores, nesta sociedade hiper-mediatizada é, o de estarem no coração do caos, a criarem ficções para os múltiplos media contemporâneos.
Borges dizia que no futuro todos seremos escritores, ironia à parte, uma profecia que parece cumprir-se cada vez mais. Não no sentido de sermos os escritores que o modelo romântico consagrou mas no de termos cada vez mais práticas de apresentação e representação do nosso eu na vida de todos os dias. (aqui a paráfrase é de um título de Ervin Goffman).
Não só uma das tendências crescentes é a proliferação dos registos pessoais, biográficos, das histórias de vida, do memorialismo, como hoje em dia é normal estarmos nas redes sociais, termos blogue ou participarmos em actividades em que, de algum modo, estamos presentes de forma representada, com um avatar ou simplesmente uma persona pública. Passámos dos 15 minutos de fama do Andy Warhol para uma permanente presença virtual nas redes de comunicação contemporâneas. Não falta muito para se cumprir outra profecia, desta vez de Brian Eno que diz que no futuro todos teremos um agente para a nossa vida pública.


(Crónica publicada no dia 9 de Maio de 2009 no Semanário Económico).

 

 



Nuno Artur Silva às 05:31 | link do post

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