Domingo, 17 de Maio de 2009

Em vésperas de eleições, multiplicam-se as iniciativas e os debates sobre Lisboa.

Para lá das questões mais políticas, do urbanismo, do território e da administração, há um debate que tem vindo a multiplicar-se no espaço público: a questão da identidade de Lisboa. Um tema que pode ter uma abordagem turística ou de marketing, mas que só faz sentido ser discutido no contexto amplo da abordagem cultural.

Só na semana que passou aconteceram dois debates públicos sobre o assunto. Um foi o lançamento da Agência para as Indústrias Criativas, o outro, no âmbito da elaboração da Carta Estratégica de Lisboa, promovido pela Câmara, um seminário sobre a marca Lisboa.

No primeiro, o foco, claro, estava no desenvolvimento das chamadas indústrias criativas como factor de desenvolvimento das cidades. No segundo, o que se procurava era uma identidade para Lisboa, que incluisse os elementos da Lisboa tradicional, o fado, os bairros populares, os eléctricos, a memória dos descobrimentos, etc, e marcas mais contemporâneas, que podem ir do Pessoa ao kuduro.

Como tem acontecido nestes debates, em ambos houve excelentes intervenções e ideias mas lembro-me sempre da frase de Almada Negreiros: “Quando eu nasci, as frases que hão-de salvar a humanidade já estavam todas escritas, só faltava uma coisa – salvar a humanidade.”

No caso de Lisboa, é verdade que a sua salvação já foi escrita em muitos planos e estratégias, e que continua a faltar salvar Lisboa. Mas há um lado na salvação de Lisboa que está por escrever. É a mitologia da cidade futura.

Tanto quanto o território material, as casas e as ruas que habitamos, uma cidade é um território imaterial. Uma cidade – Lisboa - é, muito mais do que a cidade “real”, a cidade imaginada e simbólica. Para cada cidadão ou visitante existe uma cidade diferente e ao cruzar as ruas e as praças de uma cidade, estamos na nossa cabeça a cruzar a cidade dos livros onde a lemos, dos filmes onde a vimos, das histórias sobre ela que ouvimos, das imagens dela que vimos. Lisboa é a cidade de todos os passados, fenícios, romanos, medievais, das Descobertas, do Terramoto, da Inquisição, do Pessoa, do Saramago, do 25 de Abril... e é em todos estes passados que temos que investir, no futuro, ficcionalmente. É preciso investir em equipamentos, lugares, acontecimentos, numa rede de ligações que estimulem a criação das imagens, das canções, das histórias, de Lisboa. É preciso estimular a edição de livros, a produção de filmes, a criação de séries, em Lisboa, sobre Lisboa. É preciso ocupar os espaços devolutos com ideias, é preciso criar novos museus, da Língua, das Descobertas, das Artes Populares, da Arquitectura e do Urbanismo, etc, pô-los em rede, criar percursos, nós, os nós onde nós nos encontramos.

Antes de qualquer estratégia política, Lisboa é o rio, o Mar da Palha, as colinas e a luz. Antes e depois de qualquer estratégia política há que estimular estratégias culturais, irremediavelmente contraditórias, caóticas, múltiplas. Poéticas.
 

 

(Crónica publicada no Semanário Económico no dia 16 de Maio de 2009).



Nuno Artur Silva às 15:20 | link do post

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