Sábado, 23 de Maio de 2009

Os Globos de Ouro são uma feira de vaidades, claro, e um desfile de frivolidades. Não são diferentes da maioria das galas noutros lugares do mundo, incluindo Hollywood. Quando se diz que as nossas galas são irremediavelmente provincianas e bimbas é quase sempre verdade, mas o mesmo pode ser aplicado às inúmeras galas americanas, Óscares incluídos. A diferença está na escala. Os americanos vivem fechados no seu próprio universo mas exportam esse provincianismo para todo o mundo. Há, contudo, outra diferença significativa: a sua cultura de espectáculo, a sua cultura pop, é incomparavelmente mais rica e diversificada. E na nossa televisão, onde nós só temos telenovelas e o cor-de-rosa dos mexericos sentimentais, eles, para além disso, têm filmes, séries, actores, autores, artistas - e celebram-nos, celebrando com eles a vitalidade da sua cultura popular.

As nossas televisões, não têm sabido fazer isso. Mas os Globos, apesar de tudo, têm sido a melhor tentativa de o fazer. É claro que os prémios parecem ser um pretexto para um desfile de “beautiful people” e pode-se perguntar qual o critério daquelas nomeações e escolhas, e mesmo, antes de mais, de haver aqueles prémios e não haver outros (por ex., prémios de televisão). Mas, como disse Kalaf Ângelo numa das suas, como ele, originais crónicas no Público, os Globos são (ou devem ser) uma celebração da cultura pop, numa versão de entretenimento de massas: “quer-se a mística do glamour e o brilho das estrelas para fazer sonhar todos aqueles que estão sentados no sofá em frente ao écrã”. E é certeira a citação que Kalaf faz de Paulo Leminski, que lhe ocorreu a propósito dos Globos: “não fosse isso e era menos não fosse tanto e era quase”.

É verdade que o star system que as televisões têm promovido é mediocre, quase sempre feito de figuras sem talento especial, em que a exibição de uma sexualidade vulgar se sobrepõe ao verdadeiro talento. Os nossos programas em vez de terem artistas, estão repletos de apresentadoras indiferenciadas, que repetem inanidades num eco permanente de vazio.

Mas mesmo no meio deste lixo há momentos redentores. E nestes Globos houve pelo menos um. Chamado ao palco para receber o prémio de melhor actor de cinema, Nuno Lopes decide primeiro chamar os outros nomeados, e depois dar o Globo a António Feio, seu primeiro professor de teatro. A espontaneidade e autenticidade do gesto redimiram toda a artificialidade e frivolidade da gala. Primeiro, porque estava em palco um grupo de actores que são sem dúvida dos melhores actores portugueses em actividade. Depois, pelo reconhecimento do trabalho do António Feio que, como o próprio tinha referido com ironia, acontece agora numa altura em que é pública a sua luta contra uma doença grave.

Foi um momento especial, emocionante e justo, como é raro na nossa televisão, sempre tão niveladora por baixo, tão falsa, tão reles na promoção do mais rasteiro. E só por isso os Globos valeram a pena.
 

(Crónica publicada no dia 23 de Maio de 2009 no Semanário Económico).

 



Nuno Artur Silva às 15:22 | link do post

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