Sábado, 30 de Maio de 2009

A frase tem sido muito repetida, e já não se sabe quem é que a disse primeiro: é preciso não desperdiçar esta crise. Cito-a aqui, no contexto geral da crise dos media, e no contexto dos media nacionais, no caso particular da SIC.

É evidente que a SIC atravessa um período muito difícil, a estação vive uma crise de identidade e ainda não se vislumbra uma recuperação.

É um mau sinal para o nosso pobre meio audiovisual, que precisa de estações de televisão fortes, com ideias e capacidade para as concretizar.

Como a TVI, que é uma espécie de Fox portuguesa: onde na Fox há as séries, na TVI há as telenovelas (com a honrosa excepção do Equador, excelente produção feita com apoio do FICA); onde na Fox há uma informação manipulada e despudoradamente alinhada com os republicanos, na TVI, embora com excepções pontuais, o modelo é semelhante: uma informação tendenciosa, populista e “justiceira”.

Mas voltando à SIC. O canal generalista perdeu identidade e o seu prime time é uma massa informe de apanhados, novelas (brasileiras) e anedotas.

Contudo, se pensarmos nos canais cabo a situação é inversa. Enquanto a TVI24 não trouxe nenhuma novidade e não parece estar a conseguir uma identidade própria, a SIC Notícias continua líder do cabo. E a SIC Radical e a SIC Mulher, mesmo com os seus orçamentos muito baixos, conseguem resultados aceitáveis e uma razoável identidade própria.

O combate com a TVI só pode ser feito criando uma alternativa, por exemplo, com dobragem das melhores séries mundiais que possam cativar o mesmo público das telenovelas. Esta opção irritaria de início muita gente, como eu, que gosta de ouvir a língua de origem, mas com as séries certas, dobragens bem feitas e boa promoção, poderia funcionar. Mas a ideia que eu quero deixar é outra:

Em vez de concentrar todas as energias no canal generalista e num combate muito difícil com a TVI, a SIC deve ser pensada cada vez mais como um conjunto de canais.

Mais, deve ser pensada no conjunto da Impresa e tirar partido da rede de sinergias que só timidamente ainda estão a ser exploradas, para já só com o Expresso.

Quando surgiu, a SIC trouxe uma marca muito forte e impôs-se com criatividade. Está na altura de recuperar o melhor dessa marca no novo contexto tecnológico dos media. A SIC deve ser um conjunto de canais onde a informação é absolutamente central. A ficção que a estação venha a produzir deve ser coerente com essa marca própria. A SIC deve investir em docudramas, séries, ficções que interpelem a realidade. Podia investir na área do infotainment, e particularmente do humor mais politizado, onde com orçamentos relativamente baixos se podem fazer programas acutilantes e populares.

Mas acima de tudo a estratégia deve ser distribuir o investimento pela rede de canais, (eventualmente criar mais canais). Não se pode saír desta crise com soluções para o imediato, tem que se procurar ver um futuro fértil e duradouro. O futuro não está nos canais generalistas, está na criação de uma rede com uma marca forte. 

 

(Crónica publicada no dia 30 de Maio de 2009 no Semanário Económico).



Nuno Artur Silva às 15:24 | link do post

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