Sábado, 20 de Junho de 2009

Esta semana, José Sócrates declarou que o governo devia ter investido mais em Cultura, tal como fez em Ciência. “Ora aí está um erro”, declarou o primeiro ministro, prometendo que “na próxima legislatura deveremos ter uma atenção redobrada à área da cultura e aumentar a oferta cultural do nosso país”.
Um erro, sem dúvida. Admiti-lo agora é tarde demais em relação a esta legislatura, mas é um bom princípio para uma candidatura a uma próxima. Deste ou de qualquer outro candidato. Devemos, contudo, ser cépticos em relação a este tipo de promessas eleitorais. A verdade é que em nenhum dos partidos encontramos uma estratégia para a área da cultura que não seja um rodapé, uma mera obrigação formal no conjunto das propostas e dos programas gerais de governação.
Dar “uma atenção redobrada à área da cultura” ou “aumentar a oferta cultural” não chega. O essencial da questão não tem a ver com a oferta cultural. Como não tem a ver com a “proposta” feita por Manuel Maria Carrilho e enviada aos jornais, que reclama as generalidades com as quais todos, obviamente, concordamos, começando na da Cultura “como factor decisivo no desenvolvimento de qualquer país”, etc., etc., etc. e acabando na mítica reivindicação do 1% do orçamento do Estado. Retórica genérica que todos assinamos por baixo, a começar pelo “novo” Sócrates.
A questão essencial tem a ver com uma outra generalidade, com a qual toda a gente também pode concordar, mas que ninguém parece realmente querer pôr em prática e, antes de mais, com uma nova realidade. A realidade do novo mundo em rede, das tecnologias de informação e comunicação, da fibra óptica, da velocidade e da simultaneidade da informação – e da radical mudança de comportamentos, ritos e práticas de representação – da radical mudança das práticas culturais - que essa mudança tecnológica está a causar. Já não é possível pensar a cultura com modelos e estratégias culturais do século passado. Esta nova realidade implica a reprodução desse novo modelo de redes na própria lógica de governação.
É preciso que a cultura tenha um Ministério, para a administração das suas estruturas e dos seus programas, mas o modelo do Ministro da Cultura isolado na escassez do seu orçamento e da sua reivindicação financeira já não faz sentido. O que faz sentido é, que um primeiro-ministro responda como Mitterrand terá respondido quando lhe perguntaram qual ia ser o seu Ministro da Cultura: “Todos”.
Não há, hoje em dia, política cultural se não houver uma estratégia articulada dos diferentes ministérios com o empenho pessoal do primeiro ministro. Da política da Língua, à do Património ou à das Artes e Indústrias Criativas, nada se pode fazer de estrutural e decisivo fora desta lógica de governação.
É exactamente desta forma que se pode fazer “mais com menos”, a célebre declaração programática inicial do actual Ministro da Cultura, José António Pinto Ribeiro.

 

(Crónica publicada no Semanário Económico no dia 20 de Junho de 2009).
 



Nuno Artur Silva às 21:56 | link do post

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