Sexta-feira, 3 de Julho de 2009

Jon Stewart, o anfitrião do brilhante The Daily Show, comentava no outro dia, com a sua habitual acutilância, que nem um comentador de qualquer dos três canais de televisão de economia dos Estados Unidos foi capaz de prever a crise mundial. (E o mesmo aconteceu na generalidade da imprensa escrita). Stewart dizia que era como se o apresentador do The Weather Channel (Canal da Meteorologia) chegasse ensopado até aos ossos e dissesse, perante os espectadores, “não fazia ideia que estava uma tempestade destas”. Cito de memória, e é nisto que penso agora que estamos em plena campanha eleitoral e que vejo os paineis de “especialistas” a surgirem como cogumelos por todo o lado, a fazer diagnósticos sobre o Estado da Nação.

Estes “especialistas” são, regra geral, as personalidades do costume, que vão circulando dos lugares de gestão e decisão para os lugares de comentário e influência. É o establishment não exclusivamente político mas igualmente económico e mediático, um bloco central que não se esgota nos dois partidos de poder.

A crise mundial e a nossa crise nacional não só vieram revelar a falência (literalmente) do modelo de capitalismo auto-regulado, como vieram desmascarar a suposta aura de competência, liderança e seriedade de muitos dos nossos iluminados governantes e gestores.

Mas o fenómeno é extensível à comunicação social, a maioria dos comentadores ditos sérios não foi nem tem sido capaz de perceber o que está realmente a acontecer, de romper com o establishment do lugar comum da opinião instalada. Seja em que área for, da política internacional à nacional, das finanças e da economia à cultura.

É por isso que começa a acontecer serem os comediantes, como Jon Stewart, a dizer o que ninguém está a dizer. Foi o que ele fez quando há uns anos foi convidado para o prestigiado programa de informação “séria” Crossfire e em vez de fazer o número do comediante, isto é, dizer umas graçolas, Stewart foi demolidor, desmascarando a forma como o Crossfire contribuía para a manutenção do “sistema”, do jogo de papeis instituído, acabando por dizer que os jornalistas não estavam a fazer o seu papel. A questão não podia ser mais actual, particularmente em Portugal.

Sabemos as dificuldades por que está a passar o verdadeiro jornalismo de investigação e rigor. Os tempos mediáticos são de espectáculo e confrontação simplista. Mas é obrigação dos jornalistas encontrarem novas formas de fazerem o seu trabalho, sem o desvirtuarem.

Não são só os políticos que estão em causa. Ao ver o recente manifesto dos economistas, ao ouvir, como ouvi esta semana, um banqueiro a queixar-se da falta de credibilidade que hoje em dia têm as instituições financeiras, ou um grande especulador financeiro português a queixar-se de que os capitalistas têm sido demasiado gananciosos,  ao ouvir a generalidade dos comentadores, não posso deixar de pensar no meteorologista encharcado do canal do tempo. Olho para eles e vejo-os, como a mim próprio, ensopadinhos da cabeça aos pés.

 

Nota: o título é um verso de uma canção do Paul Simon.

 

(Crónica publicada no Semanário Económico no dia 27 de Junho de 2009).



Nuno Artur Silva às 17:44 | link do post

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