Terça-feira, 14 de Julho de 2009

A recente polémica à volta do possível negócio entre a PT e a TVI acabou por se reduzir a uma discussão mais uma vez estreita e instrumental da politiquice vigente. É claro que o (eventual) controlo da informação de uma estação de televisão por parte do Estado ou do Governo em exercício merece a maior preocupação. Mas o que está em causa tem um horizonte mais amplo: a relação entre os distribuidores e os conteúdos. E quem decide sobre o que se distribui e o que se produz, seja informação, entretenimento ou ficção.
A nossa sociedade será tanto mais rica quanto mais diversidade de conteúdos oferecer e quanto mais esses conteúdos forem capazes de gerar comunidades críticas e participativas à sua volta.
O conceito tradicional de canal está a mudar. E as estações de televisão, mais do que um conjunto de canais, são marcas de comunicação integradas em grupos que incluem actividades tão diferentes como a edição de jornais, revistas, livros e DVDs, ou a produção de eventos.
No futuro próximo o que vai distinguir uma estação de outra ou um canal de outro é, cada vez mais, uma identidade própria, uma marca distinta na paisagem audiovisual. Aquilo que faz uma marca audiovisual é a capacidade de criar, produzir ou co-produzir conteúdos próprios. E, simultaneamente, a capacidade de os programar, ou seja, de os colocar e alinhar em contextos ou sequências que produzam sentidos, de uma maneira original e marcante.
No futuro próximo o que vai ser importante não é a diferença entre um jornal e uma televisão, ou entre o papel e o online, mas entre uma marca e outra ou entre o que é pago e o que é gratuito.
Nesta revolução em curso tudo está a mudar: a maneira de ver, a maneira de produzir, a maneira de programar, a maneira de anunciar, a maneira de fazer negócio. A única coisa que não está a mudar é a nossa vontade de sermos informados e de nos divertirmos. E o nosso desejo pelas histórias, pelas ficções.
É tão fundamental garantir a independência – e defender a deontologia jornalística dos órgãos de informação, particularmente em relação ao Governo – como é essencial defender que o grupo que detém a principal rede de comunicação nacional não fique refém de interesses privados, sem sentido de serviço público, portugueses ou estrangeiros.
O modelo de produção de conteúdos passa por um investimento dos distribuidores na área da produção. Os distribuidores têm de ser investidores desde o início na criação e produção dos novos conteúdos.
O que é preciso é que não se reduza tudo à compra de uma estação de televisão ou a quem controla o jornal das oito. De acordo com o princípio básico para uma verdadeira indústria de cinema e audiovisual, de “multiplicar as fontes de financiamento e diversificar os centros de decisão”, os distribuidores sabem que a vitalidade do mercado e da criatividade está longe de se resumir às três estações existentes. Não devemos afunilar tudo no modelo do século passado. Há mais vida para além das tradicionais estações de televisão. Cada vez mais.

 

Crónica publicada no Semanário Económico no dia 4 de Julho de 2009.



Nuno Artur Silva às 12:15 | link do post

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