Sexta-feira, 17 de Julho de 2009

Cruzo dois dados da semana que passou, ambos de quarta-feira, por coincidência, para escrever esta pequena nota sobre um tema que há muito me inquieta: o excesso de informação. O primeiro dado é a crónica de Rui Tavares, no Público, com o título “O que fazer à informação?”, o segundo dado é a exibição, no ciclo Próximo Futuro, da Fundação Gulbenkian, do filme “Paul Virilio: Pensar a Velocidade”.
Na crónica, Rui Tavares refere que passámos de um estado de escassez de informação para um estado de informação a mais, interrogando-se sobre se essa sobrecarga é um problema fundamental ou simplesmente “mais um efeito de uma ansiedade do que um problema real”, referindo igualmente o problema da “nebulosa de informação irrelevante” que “envolve e oculta” a informação relevante. Uma questão essencial e, porque informação é poder, desde logo uma questão política.
Paul Virilio é um filósofo que tem teorizado sobre a velocidade como “princípio estrutural fundamental do mundo contemporâneo” e sobre a permanente aceleração e presentificação dos acontecimentos, o que dá origem a uma “cultura de amnésia”.
A questão é complexa e tem muitas ramificações e implicações. Deixem-me pensá-la aqui de uma forma mais simples e individual. Por um lado, como é que cada um de nós, cidadão, espectador e receptor de múltiplos fluxos de informação, escolhe o que ler, ver, ouvir, o que fazer, onde ir? Desde as escolhas mais básicas, às escolhas culturais ou, de uma maneira mais ampla, as escolhas políticas ou as escolhas de vida. Por outro lado, como é que a sociedade em que nos integramos faz as escolhas que a vão definir?
O poder da informação já não é o quarto poder. E já não é manipulado e controlado da mesma maneira que era antes pelo poder político tradicional. O poder da informação está disseminado e presente em todas as formas de relação social, é o poder permanente. Como lidar com ele? A questão é hoje mais de modelo de sociedade do que exclusivamente jornalística. Numa sociedade cada vez mais organizada em redes virtuais onde cada um de nós tem uma representação e onde os políticos são cada vez mais actores em performance politica, é necessário uma nova forma de mediação da informação. É urgente uma nova evolução da figura do jornalista - e dos jornais, neste novo mundo de twitters, bloggers, motores de busca, neste mundo de nova aleatoriedade.
A verdade é que, escolhas tão decisivas como a de quem nos vai governar, são muito mais aleatórias do que gostaríamos de admitir. Acabamos por escolher este e não aquele, por questões que têm muito menos a ver com a política do que com simpatias, empatias e influências subjectivas ou inconscientes.
Num dos seus romances, P. K. Dick imaginava um mundo onde a democracia tinha sido substituída por uma lotaria em que os governantes eram sorteados. Uma forma de trocar a deturpação que a necessidade de espectáculo dos media tem feito do ideal democrático, por um sistema aleatório puro. Já estivemos mais longe.


Crónica publicada no Semanário Económico dia 11 de Julho de 2009.



Nuno Artur Silva às 12:22 | link do post

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