Quarta-feira, 29 de Julho de 2009

Num tempo em que toda a gente fala da crise, escrevo esta nota para saudar a vitalidade da cultura popular - no sentido pop - portuguesa.
Desde logo na música. Nunca, como hoje, houve uma oferta tão rica e variada de música portuguesa, de todos os géneros, em concertos, edições ou lançamentos. É curioso que isto aconteça precisamente no momento de maior crise do mercado discográfico ou, mais exactamente, crise das editoras.
Mas não é só na música que isto acontece. De uma maneira geral está a acontecer em todas as áreas artísticas e culturais. Veja-se por exemplo a área da opinião, onde a explosão dos blogues veio trazer novos opinadores e intelectuais. Ou veja-se o surgimento da nova geração de humoristas.
Tudo isto acontece por causa da internet, ou seja, as manifestações artísticas deixam de ficar dependentes da decisão de meia dúzia de pessoas em lugares de chefia que, mediante as escolhas e as rejeições, vinham a definir o que os públicos haviam de ver, ouvir, ler, etc.
Hoje em dia qualquer pessoa pode escrever, compor, editar, filmar com recursos mínimos e partilhar o seu trabalho com o mundo inteiro.
É certo que muito do que é dado a público é mau. Mas a verdade é que isso já acontecia antes, só que em menor quantidade. Mas, acima de tudo, o que se ganhou foi infinitamente mais do que o que se perdeu. Aliás, no caso português, é de uma grande evidência que as áreas em que a influência da net é maior são áreas que têm actualmente uma grande vitalidade. As áreas onde as coisas ainda dependem muito de apenas meia dúzia de decisores são as mais estagnadas da vida artística portuguesa: o caso do cinema ou do audiovisual é o exemplo mais óbvio.
Não há dúvida que a vitalidade e a diversidade dependem da multiplicação dos centros de decisão. Hoje vivemos mais um tempo de acção do que de reflexão, o que obriga a uma redefinição dos papeis dos mediadores, editores e programadores, bem como a repensar o papel dos divulgadores e dos críticos num mundo de redes sociais.
Lembro-me, quando comecei a trabalhar em teatro, nos anos 80, da importância que tinha para os grupos como o nosso uma referência que fosse em jornais como o Sete ou o Expresso. Lembro-me, quando fazíamos sketches de humor, de não termos canal de televisão para os exibir. Só havia a RTP 1 e 2, onde ninguém nos recebia. Hoje, há dezenas de grupos de teatro, com circuitos próprios e público, que nem precisam dos jornais de referência. Há dezenas de comediantes com o seu trabalho visível nos canais cabo ou na net.
Com o desenvolvimento tecnológico e a massificação da fibra óptica, esta tendência só pode acelerar. Cabe ao Estado aproveitar a extraordinária oportunidade que esta tecnologia traz para, através de programas de incentivo à criação, produção e promoção das actividades artísticas e culturais, contribuir para a desejada mudança do nosso panorama cultural, no sentido de em todas as áreas termos uma grande vitalidade e diversidade. Cabe a cada um dos artistas dar o melhor que pode.


Crónica publicada no Semanário Económico no dia 25 de Julho de 2009.
 



Nuno Artur Silva às 09:45 | link do post | comentar

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