Sexta-feira, 11 de Setembro de 2009

2009 é o ano das redes de nova geração em Portugal. Tem-se discutido o impacto das redes de nova geração em termos económicos e sociais mas é igualmente importante pensar e perspectivar o tema no contexto da indústria dos conteúdos, ou seja, antes de mais, em termos culturais.
Se há uma prioridade absolutamente inquestionável no serviço público é a de ligar todos os cidadãos e de tornar acessíveis os serviços e os conteúdos para todos os portugueses.
Com os anunciados investimentos nas novas redes de fibra óptica, as possibilidades de acesso aos conteúdos aumentam exponencialmente e o receio de que se pudesse estar a criar uma sociedade de informação que separasse os ricos dos pobres, isto é, os que têm dos que não têm banda larga, parece infundado. Não haverá, portanto, uma televisão para endinheirados (como hoje os pacotes cabo ou IPTV) e uma televisão para pobres (os 4 canais generalistas), haverá uma multiplicidade de conteúdos com segmentos específicos exclusivos, mas de acesso generalizado.
No entanto, o grande investimento em tecnologia não está a ser acompanhado por um investimento em conteúdos. Estamos a reproduzir o modelo do betão, que fez com que ficássemos com um país cheio de auto-estradas, estádios e salas de espectáculos vazios, sem conteúdos.
A criação de uma indústria audiovisual portuguesa forte e diversificada deveria ser uma prioridade nacional. A grande questão é: qual é o modelo de negócio, como é que se vão pagar os programas, os filmes e as séries? E a informação? (Em particular, a reportagem e a investigação de informação?) E, já agora, os novos conteúdos multimédia, incluindo jogos com conteúdos originais em Língua Portuguesa? Em suma, como se vão pagar os conteúdos originais? Sobretudo neste momento em que os operadores de televisão perdem publicidade e a net ainda não a tem de forma significativa.
Mais do que nunca, num país de pequena escala como Portugal, tem de ser o Estado a incentivar e a investir no sector. Não só através da televisão pública, como também através de políticas de investimento cultural e, desde logo, exigindo aos distribuidores que invistam naquilo que é a sua razão de existência: os conteúdos. É desses conteúdos que nós falamos nas nossas conversas, são eles que nós queremos ver a qualquer hora, em qualquer écrã, é para a existência deles no universo da Língua Portuguesa que tem que haver, urgentemente, um investimento e uma estratégia multiplataforma.
Hoje em dia não há propriamente uma indústria audiovisual em Portugal. Entre um cinema excessivamente dependente de subsídios estatais, que não encontrou ainda novas formas de financiamento, nem soube criar novos públicos, e uma televisão onde quase não há produtores independentes e onde os grandes produtores ou são sucursais de multinacionais ou são as próprias estações, a paisagem é quase deserta.
O que tem faltado em Portugal não é arte, nem artistas, o que falta é meios, produção regular, modelos de negócio articulados, sustentáveis, diversificados e duradores, ou seja, em termos gerais, indústria. E a promoção e divulgação dos conteúdos dessa indústria, isto é, aquilo que tem a ver com a dimensão mais espectacular e pública do audiovisual.
Era preciso que houvesse um investimento, paralelo ao investimento nas infraestruturas de alta velocidade, na criação, produção e promoção de conteúdos em Língua Portuguesa.
Mas uma série de mudanças no processo de produção e financiamento não é suficiente se não houver uma mudança de mentalidades que eleja a criação audiovisual como uma prioridade nacional, tão ou mais importante quanto as redes de nova geração. De que adianta termos as auto-estradas se não investimos nos automóveis que nos podem levar para todos os sentidos que queremos, se me é permitido abusar da metáfora.
O Ministério da Cultura declarou que a Língua Portuguesa é o nosso maior património e o Governo anunciou um fundo da Língua, que se desdobrará numa série de programas e iniciativas. Mas é essencial perceber que não há política da Língua sem política para o audiovisual. E para essa politica é fundamental convocar todos os jogadores (players) num grande projecto, múltiplo e diverso, que tem de ser um desígnio nacional.
A produção audiovisual é um dos sinais de vitalidade de uma Cultura e de uma Língua. Um país pensa-se e desenvolve-se nas suas ficções. Se não há filmes, séries, jogos e programas com os temas e as personagens locais, a paisagem fica menos diversificada e mais pobre. As redes de nova geração têm de ser redes de novos conteúdos.

 

Texto publicado na revista Comunicações, da APDC.

 

 

 

 


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Nuno Artur Silva às 08:30 | link do post | comentar

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