Terça-feira, 8 de Setembro de 2009

As duas próximas eleições, quase simultâneas, e a ininterrupta campanha, fazem pensar de forma muito urgente na questão: como escolher? Como escolher quem nos representa e quem nos governa? A pergunta não é: quem escolher? Não me refiro no concreto aos partidos e às pessoas em quem vamos votar, refiro-me ao que nos leva a votar num e não no outro.
Temos os programas dos partidos e temos os líderes e os seus discursos. Temos a memória deles, sempre turvada pelas nossas opções e gostos pessoais, e temos a nossa capacidade de antecipar cenários futuros. E tudo o que temos é-nos dado pelos media. Ainda há comícios e campanha porta a porta e nas feiras, mas esse contacto “directo”é, cada vez mais, uma derivação do espectáculo mediático e não o contrário. Ou seja, as televisões e os jornais já não vão acompanhar o acontecimento que é um político em campanha junto dos eleitores: o contacto “directo” do político com os eleitores é que é
a parte live, do espectáculo geral que é a campanha mediática desse político.
Tudo se joga nos media e, portanto, tudo é representação e performance, a partir de guiões ou narrativas, contextos ou circunstâncias previamente estabelecidos, de forma mais ou menos deliberada.
Não há nesta constatação nenhum julgamento moral ou sequer um desencanto cínico. A política sempre foi isto. O que se passa hoje é que isso é muito mais evidente por causa do absoluto domínio dos media na vida pública.
Governar ou fazer política em geral, sempre foi, para além das ideias e do desígnio, uma questão de narrativa, de ter um guião; e de performance, ou seja, de criar uma personagem pública, que em determinados momentos da “realidade” e da sua narrativa tem de ter uma performance inspiradora e motivadora. A verdade na política é essencial mas nunca é a verdade simplista que apregoam os populistas. A verdade na política é como a verdade dos actores, parte também de uma “suspensão da incredulidade” para poder chegar a uma verdade para lá da representação.
Mas o meio é a mensagem e os meios, os media, estão a mudar. Os palcos de representação dos políticos já não são só as televisões generalistas. Os canais multiplicam-se e as redes sociais ganham importância. Esta mudança dos media não tem sido, em Portugal, acompanhada por uma mudança da mensagem política. Critica-se muito o papel das agências de comunicação e há uma tensão permanente entre políticos e jornalistas, como é normal. Mas o problema está no ponto de partida: como é que os partidos e os seus líderes estão a construir o seu guião e a sua narrativa.
Governar e liderar é tanto fazer quanto dizer. Dizer o que se quer fazer e como é que se quer fazer já é começar a fazer.
Ter um programa, ainda por cima quase sempre generalista ou de intenções consensuais não chega. E não chega ter um rosto para primeiro-ministro. Deveria haver a coragem e a transparência de apresentar desde logo a equipa: quem são os respectivos ministros, com quem é que se está a contar para executar as políticas. E desde logo essas pessoas deveriam também dizer-nos o que pensam fazer. Um vago programa e um único rosto é muito pobre para nos dar a escolher. 

 

Crónica publicada no Semanário Económico, no dia 5 de Setembro de 2009.



Nuno Artur Silva às 16:27 | link do post | comentar

1 comentário:
De filipe3x a 10 de Setembro de 2009 às 20:48
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