Terça-feira, 22 de Setembro de 2009

Esta campanha eleitoral tem-se centrado, mais do que qualquer outra, na relação dos Esta campanha eleitoral tem-se centrado, mais do que qualquer outra, na relação dos políticos com os media. Desde logo com o caso do Jornal Nacional da TVI, mas não só. “Esmiuçando os sufrágios”, o que encontramos é que o que se está a discutir tem sido muito mais a questão da verdade ou mentira da comunicação política, as gaffes supostamente reveladoras, as contradições, as características de personalidade ou o carácter dos líderes, ou seja, muito menos os temas políticos e muito mais a forma da comunicação política e a “autenticidade” dos seus protagonistas.
É um sinal dos tempos que, depois da semana dos debates sérios, o palco televisivo central da luta política seja agora o principal programa de humor, os Gato Fedorento, na SIC. As audiências da primeira semana têm excedido todas as expectativas: a entrevista aos líderes políticos feita por Ricardo Araújo Pereira tem suscitado ainda mais curiosidade do que os debates da semana passada moderados por jornalistas.
A própria presença dos políticos no programa humorístico é promovida, citada e comentada nos inúmeros espaços jornalísticos, não só da SIC.
É a primeira vez que isto acontece em Portugal com este impacto. Antes já tinha havido incursões de políticos em programas de entretenimento, por exemplo os de Joaquim Letria ou os de Herman José, ou mesmo a contracena de políticos com os seus bonecos do Contra-Informação. E nos Estados Unidos é uma prática estabelecida a presença de políticos em programas de entretenimento. Ficou célebre a presença de Bill Clinton a tocar saxofone de óculos escuros no talk show do Arsenio Hall em 1992. E o programa onde os Gato Fedorento vão buscar o modelo, The Daily Show de Jon Stewart, sendo um programa de humor, ganhou mais importância política do que a maioria dos programas políticos. Na nomeação de Obama para candidato democrático pesou muitíssimo o apoio pessoal de Oprah Winfrey e a presença regular do casal candidato no programa
Por outro lado, também lá como cá, existe uma estação que pratica uma forma degenerada de jornalismo, a Fox, ferozmente republicana, anti (partido) democrata, regularmente desonesta.
Os intervenientes mediáticos deixaram de se esgotar nas figuras simplistas do político e do jornalista: os “jornalistas” podem tomar partido e têm vários “estilos”, há humoristas que se tornam opinion makers, há comentadores políticos que são políticos profissionais e políticos que têm programas na televisão ...
Os media tradicionais estão a transformar-se numa multiplicidade de canais e redes sociais. Mudando o meio, as mensagens mudam com ele. O que era jornalismo e o que era entretenimento mistura-se em inúmeras variações de um único género híbrido: o reality show. Jornalistas, políticos ou entertainers, todos são, antes de mais e sobretudo, personagens da telenovela da vida pública e, tal como os concorrentes do Big Brother, dizem, em sua defesa, que se limitam a ser eles próprios.
Aliás, nesta campanha, a líder da oposição tem feito dessa afirmação a mensagem central da sua campanha.
 

* “All the world’s a stage and all the men and women merely players”, W. Shakespeare.

 

Crónica publicada no Semanário Económico no dia 19 de Setembro de 2009.

 



Nuno Artur Silva às 09:15 | link do post

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