Quinta-feira, 1 de Outubro de 2009

A acelerada mudança tecnológica nos meios de comunicação e a consequente mudança de hábitos de consumo e de modelos de negócio têm vindo a transformar as nossas vidas de criadores e espectadores de conteúdos, de forma muito mais radical do que pode parecer à primeira vista.
Como é que estamos a lidar com esta mudança? E, sobretudo, como é que os media propriamente ditos e as leis que os regulam estão a adaptar-se à nova realidade? Como é que eles podem tirar o melhor partido dessas mudanças e adaptar-se e gerar novas potencialidades para o futuro próximo?
Nas televisões, o declínio dos canais generalistas é óbvio. Tirando o primetime noticioso, estes canais já não são generalistas, nem no perfil, nem no volume da sua audiência. Quando se falar na RTP, na SIC ou na TVI, vamos falar cada vez menos dos seus canais “generalistas“ e cada vez mais na sua rede de canais. Neste contexto, a recente discussão e anulação de um quinto canal parece cada vez mais obsoleta. Não só o que estava em questão não era um canal, mas sim um novo grupo de comunicação, como entretanto já estão a surgir novos canais de televisão, vindos dos actuais grupos ou de novos grupos. Com a convergência dos jornais e das rádios para o online, esta multiplicação de canais ainda será mais flagrante. Partindo do princípio que os conteúdos audiovisuais estarão em toda a parte e que os menus de acesso a eles se tornarão mais personalizados, vai ser interessante ver a forma como se vai esbater a diferença entre televisão e net, entre zapping e linking.
Consequência disto é a urgência de rever os sistemas de medição de audiência. Desde já, no cabo. Com as net tv e desde logo com a Meo, por exemplo, a medição já é totalmente diferente: muito mais rigorosa quanto ao número de pessoas a ver, embora igualmente incerta em relação ao perfil dos espectadores. Quando é que os anunciantes vão acordar – e agir – face a esta nova realidade? Quando é que as agencias de meios vão deixar de ser a força de resistência e bloqueio a esta inevitável mudança?
Neste contexto em que tudo vai convergir para o online, em que os canais se vão multiplicar e as audiências pulverizar, a grande questão tem a ver com os modelos de negócio. Como é que se vai conseguir pagar os conteúdos? Como é que se vai fazer jornalismo de investigação, como é que se vão fazer filmes e séries com um mínimo de escala de produção?
É um novo mundo onde, mais do que se falar de jornais e canais, se vai falar de marcas, criação de comunidades e redes sociais. Mais do que nunca, vai ser necessário que haja politicas públicas de incentivo à criação, produção e divulgação de conteúdos de qualidade, numa lógica de criação de diversidade. Tendo sempre presente que o Estado não deve interferir nos conteúdos de forma directa, mas deve criar condições para que, neste contexto de grande oportunidade que as redes de nova geração trazem, possa acontecer igualmente um grande desenvolvimento na área da informação, da ficção, do entretenimento e da cultura.
 

Crónica publicada no Semanário Económico dia 26 de Setembro de 2009.

 



Nuno Artur Silva às 11:53 | link do post | comentar

Bio Notas biográficas Currículos Fotos Links Acerca E-mail Work Livros Peças Episódios Artigos Ideias Notas Média Rádio English