Terça-feira, 13 de Outubro de 2009

“As audiências são um embuste”, quem o disse foi Pedro Bidarra, o director criativo da BBDO, numa entrevista ao Jornal i (dia 1 de Outubro).
(Uma breve nota só para sinalizar a forma como o Jornal i se tem vindo a impor como uma nova marca de referência no jornalismo português. Quem dizia que não havia espaço para um novo jornal?)
Pedro Bidarra é o melhor publicitário português e na entrevista que ele deu percebemos porquê. Diz ele: “se, há uns anos, bastava fazer um anúncio e pôr dinheiro nas televisões e nos jornais – estava-me nas tintas porque sabia que, mais cedo ou mais tarde, toda a gente ia ver -, hoje, ponho lá esse mesmo dinheiro, talvez até mais, e nada acontece porque as pessoas não vêem, não sabem, estão noutra onda. É muito difícil, neste mundo, partilharmos experiências. Essa é a nossa dificuldade.” E noutra resposta: “as audiências são mal contabilizadas. É um verdadeiro embuste. Os números são falsos. Os canais generalistas ainda são assim tão dominantes como aparece nas audiências? E o cabo? Não há cada vez mais gente a ver os canais onde passam as séries? Claro que sim, mas a medição das audiências não acompanhou esta evolução, o que desfoca o planeamento dos investimentos e compromete as campanhas.” Vários de nós têm dito isto, mas quando é o vice-presidente e director criativo da melhor agência de publicidade portuguesa a dizê-lo, ganha outra força.
Vale a pena procurar a entrevista no sítio do i, lê-la na íntegra e ver como ele compara os publicitários a Cyrano de Bergerac: “nós somos a malta do nariz grande (...) somos feios, mas temos talento para falar e dizer coisas”.
A mudança do modelo de negócio dos media passa obrigatoriamente pela mudança na forma de investir e fazer publicidade. Esta mudança não está a acontecer em Portugal à velocidade necessária. A resistência do status quo do sistema das agências de meios e de publicidade e a insuficiência dos medidores de audiência, aliados ao desconhecimento e conservadorismo dos anunciantes, estão a causar um prejuízo crescente quer ao desenvolvimento dos media quer, no fundo, à própria eficácia e qualidade da publicidade.
Qualquer pessoa minimamente atenta percebe que, de dia para dia, os nossos hábitos de consumo de informação, entretenimento e cultura estão a mudar radicalmente. Já para não falar dos hábitos das crianças. O novo mundo comunicacional e dos conteúdos está a pôr em causa os fundamentos básicos da nossa cultura: a forma de ouvir e contar histórias, a criação dos nossos heróis e das nossas mitologias, a maneira como nos informamos e como essa informação condiciona as nossas decisões, do dia-a-dia ou de fundo, decisões de consumo ou decisões políticas. Estamos no epicentro da maior revolução na forma de comunicar desde a invenção da imprensa. O que se está a passar com a explosão da net e a convergência e multiplicação de conteúdos e de écrãs está a mudar as nossas vidas mais ainda do que o surgimento e massificação da televisão. É uma época excitante para todos os que vivem dos média. E com os média. E nos média. Para todos.
 

Crónica publicada no Semanário Económico, no dia 10 de Outubro de 2009.



Nuno Artur Silva às 09:00 | link do post | comentar

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