Terça-feira, 20 de Outubro de 2009

Cruzando as notícias e os relatos da última edição do MIPCOM (a maior feira mundial de conteúdos audiovisuais) é muito fácil perceber as linhas de força da mudança. Desde logo, segundo um relatório da consultora PWC, as áreas dos media e do entretenimento são áreas que vão crescer mais do que a média europeia das outras actividades. Simultaneamente, nos próximos anos, mesmo contando com a Índia e com a China, não é esperado que se chegue aos níveis de investimento em publicidade de 2007.
A crise fez descer os valores mas acelerou a migração para o digital, precisamente porque aí os custos são muito inferiores. Os adultos estão a entrar em força na net e nas redes sociais, levados pelos mais novos. Definitivamente o prime time televisivo morreu.
A experiência de ver televisão está a mudar. Aliás vai ser curioso no futuro próximo perceber qual a expressão que se vai utilizar. Em português tudo indica que diremos que vamos ver televisão, ainda que o venhamos a fazer em écrãs diferentes do televisor: computadores, consolas, telemóveis ou outros gadgets.
A Yahoo está a lançar a Yahoo TV, uma televisão com um menu de design net. A experiência do zapping vai cruzar-se com a prática do linking, num mesmo dispositivo. Os interfaces e os menus vão mudar, permitindo aumentar exponencialmente as variáveis de visionamento dos conteúdos.
Não só os menus se tornarão cada vez mais personalizados, evitando perder tempo com conteúdos que não nos interessam, como será possível fazer os nossos próprios alinhamentos de programas e partilhá-los com outras pessoas no momento, como se fossemos VJs, ou em diferido, criando playlists e sets como fazemos com os CDs que oferecemos ou com a partilha de vídeos tipo Facebook.
A grande questão do futuro é, claro, a dos direitos de autor. Com a inevitável replicação do conteúdo na net vai ser preciso encontrar fórmulas de pagamento de direitos que se adaptem a essa inevitabilidade. O papel do produtor e do distribuidor está a ser completamente redefinido e a tendência é para haver uma enorme variedade e criatividade nos modelos de negócio. Mas é de reter a afirmação do CEO da Freemantle que assinala que a razão pela qual o Reino Unido bateu os EUA na guerra dos formatos para televisão nos últimos 15 anos tem a ver com o facto dos direitos ficarem com os produtores e estes saberem melhor o que fazer com eles do que os distribuidores.
Neste universo pulverizado o segredo está em criar conteúdos que se tornem formatos e formatos que gerem marcas que criem à sua volta comunidades e, em última análise, que se tornem marcas globais.
Nesta nova realidade a publicidade também está a mudar radicalmente. Ninguém quer já ver um anúncio que não conte uma história, não tenha uma ideia visual forte ou não tenha humor. Acabou o tempo do “compre já”. A tendência vai ser a das agências começarem a criar conteúdos para as marcas que representam e levá-los já pagos às televisões e plataformas. Já não é tanto a colocação de produto no conteúdo quanto a criação de conteúdo não publicitário a partir do produto.
Veremos como estas tendências serão traduzidas em Portugal.

 

Crónica publicada no Semanário Económico no dia 17 de Outubro de 2009.

 



Nuno Artur Silva às 09:00 | link do post

Bio Notas biográficas Currículos Fotos Links Acerca E-mail Work Livros Peças Episódios Artigos Ideias Notas Média Rádio English