Quarta-feira, 28 de Outubro de 2009

Se olharmos para o cinema português e para a ficção televisiva dos últimos anos, que histórias e que personagens ficam na nossa memória? De tudo o que foi produzido, o que é que deixou inscrição e marca na cultura popular?
Com honrosas excepções, o panorama é desolador. E o facto de sermos um país pequeno, sem escala e sem dinheiro, não é desculpa.
As excepções são quase todas no cinema dito de autor e são casos raros no meio de anos de produção de filmes onde há mais pretensão que arte.
Na televisão, se exceptuarmos o território do humor, o que fica da produção de ficção ainda é, na proporção, menos do que no cinema. Como se explica esta escassez?
A resposta imediata é falta de boas histórias e de bons argumentistas. Mas qual é a razão por detrás desta ausência de argumentos e autores?
A explicação está no divórcio entre as televisões e o cinema português: as televisões não gostam do cinema português que tem sido feito e o cinema português despreza a cultura popular das televisões.
O cinema tem existido unicamente na dependência de um sistema de subsídios estatais. As tentativas de diversificar as fontes de financiamento e os centros de decisão sempre falharam. Para além disso, o único modelo vigente concentra todo o poder na figura do realizador, e quase não existem argumentistas porque estes são vistos como tarefeiros para escrever os filmes que os realizadores têm na cabeça e não são capazes de escrever.
Por outro lado, as televisões portuguesas sempre investiram mais nos programas de entretenimento do que nas séries de ficção. O único investimento que foi feito de forma duradoura na ficção foi o investimento na produção de telenovela. A ideia era imitar o sucesso das telenovelas brasileiras em Portugal e, durante uma década, esse sucesso foi replicado em versão portuguesa. Mas, se é certo que a produção de telenovelas gerou emprego e visibilidade para um conjunto de técnicos e actores, o seu efeito perverso é esmagador. A telenovela é um modelo ficcional pobre, redutor e estereotipado.
Citando João Lopes: “A narrativa nasce de um jogo constante de linhas que não fecham os sentidos do mundo. Fazer narrativa é exactamente o contrário daquilo que vemos nas telenovelas: aí todas as linhas confluem para o mesmo ponto, todos os sentidos parecem unívocos, compramos a ilusão de um mundo transparente”.
Precisamos de boas e variadas histórias e personagens no nosso cinema e na nossa televisão, que têm de deixar de estar divorciados. Antes de mais tem de ser feito um investimento na escrita. Nos EUA o autor está no centro da produção das séries. É ele que escreve e é ele que decide o final cut da série.
Quando comecei a trabalhar como guionista de televisão, no início dos anos 90, estive numa reunião na RTP. E não me esqueço que um dos produtores do programa perguntou, na reunião, se era realmente preciso um guionista para escrever o programa. Isto aconteceu há menos de vinte anos e é revelador . Não só os argumentistas eram precisos como hoje o são mais do que nunca.

 

Crónica publicada no Semanário Económico no dia 24 de Outubro de 2009.



Nuno Artur Silva às 11:53 | link do post

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