Terça-feira, 3 de Novembro de 2009

A tensão entre a administração Obama e a Fox News está elevada. A Casa Branca acusa o canal de ser “uma ala do partido republicano” e vai tratá-lo como “um adversário”. Tivemos a versão portuguesa no caso Sócrates vs. Jornal Nacional da TVI. O Jornal Nacional, tal como a Fox, substituiu a deontologia e os princípios jornalísticos por uma agenda política e pela promoção de um ponto de vista.
No caso português a tensão ainda é, ou foi, muito personalizada nas figuras do primeiro ministro e do director da estação e da sua mulher, pivot do jornal (introduzindo aqui um elemento novelesco característico, aliás, do canal em causa). Mas não está excluída a hipótese de haver alinhamentos políticos ou mesmo partidários mais generalizados e óbvios não só neste, mas noutros grupos de comunicação portugueses.
Esta é uma questão central da democracia actual: o controlo dos média e o seu alinhamento político. E, no centro da questão, a liberdade de imprensa. Isto acontece paradoxalmente quando há uma quebra de audiências dos canais generalistas, bem como do número de leitores de jornais. Mas, em simultâneo com esta pulverização de públicos, há movimentos no sentido da concentração desses múltiplos canais e marcas em grandes grupos de comunicação.
Como é que vai ser possível fazer jornalismo, jornalismo a sério, jornalismo de investigação, sem ficar refém dos interesses económicos ou políticos do grupo de comunicação onde se trabalha?
A questão já era colocada no filme The Informer, de Michael Mann (1999), onde o jornalista representado por Al Pacino é confrontado com o facto de a empresa que ele está a investigar por prática de (digamos genericamente) corrupção, ser a principal financiadora do seu jornal, e de, se ele prosseguir com a investigação, o seu lugar no jornal ser posto em causa.
É fundamental que o jornalismo, o jornalismo sério e a sério, não só sobreviva, como recupere o poder que tem perdido. Para que isto aconteça é preciso que os sítios para se fazer jornalismo possam ser não só o jornal, a rádio ou a estação de televisão, e que os jornalistas se comecem a organizar e defender em agências, associações, produtoras...
As notícias vão estar permanentemente online, em actualizações. E vamos estar rodeados de televisão mas, cada vez mais, não só da televisão convencional generalista. Cada um de nós assinará e receberá os canais e as marcas que quiser, pelas redes sociais que quiser.
O que é que fica para os jornais em papel? O que é para guardar. Opinião, reportagem, entrevista, fotografia, cartoon... Em resumo, o que seja mais personalizado, numa selecção com critério e com marca, editorial e gráfica.
No excelente “Ideias Optimistas”, livro recentemente editado pela Tinta da China, Walter Isaacson escreve: “Imaginemos que nos últimos 550 anos a nossa informação nos tinha sido entregue de forma digital através de écrãs. Depois, um qualquer Guttenberg moderno tinha inventado uma tecnologia que permitia transferir estas palavras e imagens para páginas de papel (...) que podíamos levar connosco para o pátio, para o banho ou para o autocarro. Certamente ficaríamos encantados com este enorme passo em frente e iríamos prever que esta tecnologia um dia seria capaz de substituir a Internet.”

 

Crónica publicada no Semanário Económico no dia 30 de Outubro de 2009.



Nuno Artur Silva às 09:30 | link do post

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