Terça-feira, 10 de Novembro de 2009

Só nos apaixonamos pelas cidades onde nos apaixonamos. Cito de memória a frase, salvo erro, de António Muñoz Molina no seu livro “O Inverno em Lisboa”.
Dizer que estamos apaixonados e falarmos na paixão tornou-se, hoje em dia, uma banalidade. Por tudo e por nada, nas revistas e nas televisões, nos contextos mais diversos, toda a gente declara que está apaixonada por isto ou por aquilo e que não pode viver sem paixão. Lembro-me sempre de um provérbio índio que Sophia de Mello Breyner Andresen citava, julgo que a propósito da palavra revolução, usada por tudo e por nada a seguir ao 25 de Abril, e que dizia que “uma palavra que está sempre na boca transforma-se em baba”.
Mas, se limparmos a baba da vulgaridade e do kitsch, a ideia de estarmos apaixonados pelas cidades onde nos apaixonamos é, ao mesmo tempo, poética e verdadeira.
Molina falava da paixão por uma mulher e, como acontece nas histórias de paixão, quando se perde a pessoa por quem estamos apaixonados, ganha-se para sempre a mitologia dessa paixão, e ela nunca morre. E o sítio onde a paixão começou e o encontro teve lugar fica para sempre um monumento íntimo nessa cidade da nossa vida. “Teremos sempre Paris”, como dizia Bogart em Casablanca.
Hoje em dia, com o fim das grandes narrativas, o amor e a paixão românticos e relativamente uniformizados pela literatura sentimental e pelo cinema clássico de Hollywood e depois banalizados e estereotipados pelas revistas do coração, a televisão e as telenovelas, implodiram e explodiram em mil e um estilhaços. As pessoas, claro, continuam a “apaixonar-se”, ou seja, a ter desejo umas pelas outras e a encontrar inspiração e expressão para o seu desejo na caótica mitologia contemporânea.
Hoje, como antes, é nas histórias e nos seus heróis que procuramos a resposta para perceber quem somos, aquilo com que nos identificamos, aquilo que nos faz correr e nos anima, nos dá alma. O que mudou foram as histórias e a maneira de as contar.
Tal como está a acontecer na relação dos crentes com as grandes religiões uma cada vez maior personalização, especificidade e liberdade na relação de cada um com a mitologia tradicional, também nessa grande religião profana que é a literatura, e em particular a literatura de temática amorosa, os mitos tradicionais estão a dar lugar a uma nova mitologia complexa, instável e incerta.
Mas existirão sempre os sítios e as cidades para as nossas “paixões”. Num tempo em que, pela primeira vez na História da Humanidade, há mais gente a viver em cidades do que no campo, as cidades são cada vez mais os lugares caóticos dessas paixões. Quando falamos de cidades falamos de habitação, trânsito, ordenamento do território, etc, e pensamos em realidades físicas. Mas, mais que uma realidade física, uma cidade é uma realidade mental. Como o amor, “una cosa mentale”. Uma cidade é um livro onde todos os dias se escrevem novas histórias. Romances.
Passear ou vaguear numa cidade é vaguear pelas histórias que fazem a História dessa cidade. Quanto mais histórias mais mítica é a cidade. Quanto mais imagens, mais real é.
No filme Casablanca o avião partia para Lisboa. Rick e Ilsa ficaram para sempre com Paris, mas nunca tiveram Lisboa. Nós, lisboetas, podemos tê-la. Como canta Vinicius Cantuária, “o grande lance é fazer romance”.

 

Crónica publicada no Semanário Económico no dia 7 de Novembro de 2009.



Nuno Artur Silva às 15:26 | link do post

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