Terça-feira, 17 de Novembro de 2009

Está de novo em Lisboa, para um seminário, Robert McKee, geralmente considerado o grande mestre da escrita de argumentos. Sobre o cinema português as suas considerações são, no mínimo, muito discutíveis ou mesmo ignorantes, sobretudo quando diz que os filmes portugueses fazem da pobreza um objecto decorativo ou que trabalhar com subsídios do estado “é sempre aceitar fazer implicitamente uma certa forma de propaganda”. Mas é impossível não concordar quando diz que o cinema português não tem uma dimensão universal e que é “imaturo”. Contudo, para mim, a afirmação mais interessante é a que faz na entrevista ao DN, quando diz que as pessoas precisam de novas imagens, novas linguagens e novas formas de beleza, e que “Hoje a televisão é o lugar onde tudo isso se concretiza (...) os melhores estão a deixar o cinema para irem para a televisão. A verdade é que lá têm mais liberdade para criar, mais espaço para desenvolverem as narrativas e as personagens, e também mais dinheiro. Os escritores de séries têm hoje um enorme poder”. McKee fala, é claro, da televisão americana. A realidade da televisão portuguesa não poderia ser mais oposta. A produção de ficção na televisão portuguesa, no conjunto dos seus canais generalistas e de cabo é, com honrosas excepções, um deserto de ideias e de formas, um lugar onde não há espaço para se desenvolverem narrativas para além das monocórdicas telenovelas. Um espaço povoado de formatos internacionais plastificados. Um território onde os autores não têm qualquer poder. Não há lugares de decisão artística. É tradição os directores de programas, normalmente jornalistas ou ex-jornalistas, interferirem de forma arbitrária nos conteúdos, sem delegarem essa interferência em equipas de profissionais reconhecidos em áreas artísticas. É normal serem tomadas decisões estratégicas de política de conteúdos por analistas de audiências, marketeiros ou administrativos genéricos. Há décadas que é assim e é por isso que quando pensamos na produção de ficção nacional há tão pouca coisa que mereça ser mencionada.
Quando falo com actores, autores, realizadores ou técnicos de maneira geral, sobre o seu trabalho em televisão, o mais comum é ninguém gostar do que está a fazer. Fazem-no com brio profissional, para ganhar dinheiro, mas ninguém fala do seu trabalho em televisão com entusiasmo. É um extraordinário desperdício de recursos e talento, geração após geração, num meio, a televisão, que devia ser o palco privilegiado para a existência de uma cultura narrativa forte e diversificada. Agora que a televisão se reinventa no contexto da internet e da multiplicação de écrãs, é tempo de mudar os modelos organizacionais dominantes, que têm contribuído para esta situação de estagnação, e investir a sério, com estratégia e de forma planificada, na criatividade. Só a criação de ficções originais pode originar um verdadeiro património audiovisual nacional. Sabendo que as realidades americana e portuguesa não são comparáveis, pela escala e pelo investimento financeiro, há todavia um ponto onde o exemplo americano pode e deve ser seguido: a aposta nos autores.

 

 

 

Crónica publicada no Económico, no dia 14 de Novembro de 2009.



Nuno Artur Silva às 10:00 | link do post

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