Terça-feira, 24 de Novembro de 2009

“A vida é aquilo que acontece enquanto fazemos planos para o futuro”. A frase é do John Lennon, que teve uma vida cheia e a quem a morte aconteceu enquanto fazia planos para o futuro, passe a ironia negra.
Agora que estamos no fim da primeira década do século XXI e que imaginamos como é que será a próxima, faço o exercício de recuar várias décadas e de relembrar quais eram os meus planos para o futuro, sobretudo no tempo em que eu fazia planos para o futuro.
Como é que era o futuro no passado?
No final dos anos 70 eu estava no Liceu Pedro Nunes e partilhava com os meus amigos o gosto pela ficção dita científica. Um dos exercícios obrigatórios era fantasiar o futuro no mítico ano 2000 e cruzar leituras, filmes e fantasias. Carros voadores? Chegada a Marte? Provas de inteligência extraterrestre? Robots humanóides? É sempre muito divertido rever as visões do futuro das várias épocas passadas. Das conversas do Pedro Nunes saíam delirantes visões de naves espaciais mas nunca ninguém imaginou a internet. Os filmes futuristas dão sempre vontade de rir pelos pormenores de design e pelos anacronismos em que tropeçamos no meio dos rasgos visionários. Os Flight of the Conchords têm uma canção, já desta década de 2000, que sintetiza este espírito, “the distant future, the year 2000, the humans are dead”...
2009 visto do pátio do Pedro Nunes fazia de mim um ancião rodeado de robots que regularmente passava férias na lua. Hoje rio-me, claro, do visionarismo vesgo e tropeço nos meus próprios anacronismos. Mas acima de tudo, tenho saudades daquele pátio. Continuo a fazer antevisões para a próxima década, mas começo a ficar mais fascinado por tudo o que já aconteceu.
A Newsweek publicou no seu site um vídeo que resume a década: da derrota de Gore à vitória de Obama, é uma visão muito americana, claro, mas é o chauvinismo mais popular e decisivo do planeta. Em sete minutos revemos a década: o 11 de Setembro e os outros atentados, Madrid, Londres, Bali; o Afeganistão e o Iraque, Bin Laden e Sadam; mas também o iPod, o Youtube e as redes sociais, Harry Potter e a multiplicação dos reality shows e a morte de Michael Jackson; a crise económica e a gripe A...
Como é que seria se cada um de nós pudesse fazer a sua retrospectiva pessoal com imagens e sons do que foi a última década da sua vida? Aqui fica uma ideia para o futuro. Quando será que isso é possível? No filme The Final Cut, Robin Williams faz o papel de um editor que a partir de implantes do cérebro das pessoas falecidas faz uma edição do essencial da vida dessas pessoas. O filme perde-se em cenas de acção provavelmente impostas pelos modelos de produção standard, mas a personagem melancólica de Williams fica.
Como é que será o balanço da próxima década? A Wired do mês passado escolhia dez coisas que havemos de dizer aos nossos netos, por exemplo: “no meu tempo os concursos de televisão davam prémios em dinheiro a quem conseguisse armazenar mais informação na cabeça; os écrãs eram maiores mas só mostravam filmes a certas alturas do dia; guardávamos ficheiros nos nossos próprios computadores e tinhamos que recorrer a esses mesmos computadores para ter acesso a eles!”
Passamos imenso tempo a imaginar como vai ser o futuro. Escrevem-se páginas e páginas com antevisões tecnológicas, políticas, sociais, comportamentais, artísticas... Vivemos fascinados com o mundo de possibilidades à nossa frente, como jogadores viciados no tudo ou nada da roleta. Porque o que é fascinante nos exercícios de futurologia é saber que tudo muda a cada instante, que um cisne negro quem sabe esvoaçará no lago, que a próxima esquina que virarmos pode-nos fazer encontrar o que já não procurávamos, que o acaso continua a jogar aos dados e a escrever o destino, que “o destino é a inteligência secreta do acaso”, como dizia René Char, que “o destino passa (...) como uma pluma caprichosa / passa pelos olhos de um gato”, como dizia Alexandre O’Neill.
Passo o tempo a imaginar o futuro mas a única coisa que conta, a única coisa que vai contar, é como é que nesse tempo vai ser o meu passado. 

 

Crónica publicada no Económico no dia 21 de Novembro de 2009.

 



Nuno Artur Silva às 09:43 | link do post | comentar

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