Terça-feira, 1 de Dezembro de 2009

“Só nos apaixonamos pelas cidades onde nos apaixonamos.” Era a frase que escolhi para abrir a crónica de há três semanas. Citava de memória e dizia que era, “salvo erro”, de António Muñoz Molina no seu livro “O Inverno em Lisboa”. Não era. Mas podia muito bem ser. Era quase. O Rui Cardoso Martins contava-me a história de um seu amigo que, tendo visto um carro parecido com o dele, Rui, a passar, lhe disse: “hoje quase que te vi.”
A frase não era do Molina, era do Durrell, citado pelo Molina. A verdade é que a frase não é de nenhum deles. O que se lê n’”O Inverno em Lisboa” é: “ama-se uma cidade – di-lo Durrell no “Quarteto de Alexandria” - quando se está apaixonado por um dos seus habitantes.” Aliás esta citação vem logo na badana da edição do Círculo dos Leitores que cita um texto de Francisco Bélard, no Expresso de 10 de Outubro de 1987, onde ele, portanto, cita Molina que cita Durrell.
É o que dá citar de memória. Mas pelo menos avisei que citava de memória e “salvo erro”. A frase, tal como a escrevi, tanto quanto sei, não era de ninguém. Sendo uma falsa citação passaria a ser minha, tanto quanto uma frase pode ser nossa, até prova em contrário. Apesar de ser copiada de uma ideia do Durrell (através do Molina).
Isto tudo para falar de citações e de erros. “Adoro citações.” O rigor de um citação pode ser muito importante: Ela disse “Desaparece!” ou “Sai da minha frente!”?Muito importante.
Outro livro de outro autor de que não me lembro (americano) começava com três citações: “To be is to do” (Sócrates, o antigo); “To do is to be” (Sartre), e “Do be do be do” (Frank Sinatra). É todo um programa.
A minha história preferida com citações é a do mendigo que estava a pedir esmola e a quem o homem que estava a passar disse: “Se um pobre te pedir um peixe não lhe dês um peixe, ensina-o a pescar: Confúcio”. Ao que o mendigo respondeu: “Fuck you: David Mamet”.
Aprendemos imenso com os nossos erros. Acertar muitas vezes não tem interesse nenhum e, com o tempo, acaba por trazer muita melancolia. Dizem. Quando erramos temos que tentar outra vez, temos que tentar não errar de novo, temos de perceber como é que isso se faz. No processo sofremos e aprendemos.
“Try again. Fail again. Fail better!” (Beckett). Tenta outra vez. Falha outra vez. Falha melhor! Se traduzirmos fail por erra, traduzimos mal, perdemos o Beckett na tradução mas podemos ganhar qualquer coisa se dissermos “Tenta outra vez. Erra outra vez. Erra melhor!”. A palavra errar pode ter o sentido de vaguear. Errante é o que erra ou vagueia. Vaguear pode ser divagar. E divagar é quase sempre devagar. Mas hoje em dia quase nada é devagar. E mesmo divagar pode ser o que se faz muito depressa. Ligando umas coisas às outras. Ligando ou linkando. Podem-se escrever crónicas assim. Por tentativa e erro. Tudo pode começar com uma citação. Sobretudo se for uma citação errada. Um erro pode ser muito produtivo. A melhor maneira de conhecer uma cidade é perdermo-nos nela. Enganarmo-nos no caminho. Um engano é uma citação errada. Podemos conhecer uma pessoa por engano. Um engano é um detalhe no destino. A vida é uma comédia de enganos. Os romances são feitos de detalhes. Um romance é estrutura e detalhes. “Deus está nos detalhes.” Quem disse? Um romance pode ser um erro. “Mesmo que os romances sejam falsos, não importa, não importa, são bonitas as canções.” (Chico Buarque, tenho a certeza. Falta a música.).
Já para não falar das gralhas. Uma gralha é um pássaro que era para ser outro. (Esta frase é minha, inventei-a agora). 

 

Crónica publicada no Ecónomico no dia 28 de Novembro de 2009.



Nuno Artur Silva às 21:10 | link do post

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