Terça-feira, 8 de Dezembro de 2009

“Primeiro encontramos, depois procuramos” dizia Picasso, pintor espanhol e do mundo. Nós, portugueses, primeiro encontrámos o Brasil. Falta agora, mais de quinhentos anos depois, procurá-lo.
O começo não podia ter sido mais auspicioso, segundo a narrativa que dele fez Pêro Vaz de Caminha na carta em que escreveu a El Rei D. Manuel “a nova do achamento desta vossa terra nova”. E a terra nova que achávamos era, para além da terra real primeiro intitulada de Vera Cruz, a nova Língua Portuguesa, pátria que Pessoa haveria de proclamar séculos depois. E Caetano de cantar, roçando a sua língua na língua de Luís de Camões. E perguntando: “o que quer, o que pode esta língua?”, e respondendo “Livros, discos, vídeos à mancheia / E deixa que digam, que pensem, que falem”.
Faz 75 anos que Pessoa escreveu a “Mensagem”, o seu único livro de poemas em português que foi publicado antes da sua morte e que agora a Guimarães edita em cópia do dactiloscrito original. Em vez dos poemas com nomes de reis e heróis, hiperbolizados e ultra-citados, escolho uma passagem do lado B do livro, do poema Horizonte, que fala da terra a abrir-se em sons e cores “E, no desembarcar, há aves, flores, / Onde era só, de longe a abstracta linha”.
Para além do épico d’”Os Lusíadas” e do pícaro da “Peregrinação” há na pátria marítima da Língua Portuguesa navegações e derivas que só a poesia alcança. “Outros dirão senhor as singraduras / Eu vos direi a praia onde luzia / A primitiva manhã da criação”, escrevia Sophia; e de novo e sempre Sophia: “Vi as águas os cabos vi as ilhas / E o longo baloiçar dos coqueirais (...) As ordens que levava não cumpri / E assim contando tudo quanto vi / Não sei se tudo errei ou descobri”.
Ou Al Berto no conjunto de poemas Salsugem escrevendo do marinheiro que “... ficava a bordo encostado às amuradas horas a fio (...) com “a vontade sempre urgente de partir” ou das mulheres que ficavam “à beira mar debruçadas para a luz caiada / remendando o pano das velas espiando o mar / e a longitude do amor embarcado...”, (...) acreditando que algum homem ao passar se espantasse com a minha solidão.../ (anos mais tarde, recordo-me agora, cresceu-me uma pérola no coração, mas estou só, muito só, não tenho a quem a deixar.)”
Só na poesia nos encontramos, no esplendor da Língua que é a Literatura, nossa única pátria. “Falta cumprir-se Portugal” dizia Pessoa na “Mensagem”. Esse Quinto Império mítico é o do sonho e da música da Literatura em Língua Portuguesa, hoje disseminada por todo o mundo em “livros, discos, vídeos à mancheia”. O futuro de Portugal é a mistura, a mestiçagem e a vadiagem da língua portuguesa pelo mundo. O futuro de Portugal é o Brasil.
O acordo ortográfico é útil e inútil porque inevitável. Se não formos com o Brasil para o mundo ficaremos mirandeses e o nosso português ficará o mirandês do português.
Se há um desígnio para a CPLP é a criação de uma verdadeira comunidade cultural. A revolução da internet definindo um novo território imaterial traz consigo a oportunidade para a criação dessa comunidade.
É tempo de procurar o Brasil. É tempo do Brasil nos descobrir.


Crónica publicada no Económico no dia 5 de Dezembro de 2009.



Nuno Artur Silva às 09:11 | link do post | comentar

Bio Notas biográficas Currículos Fotos Links Acerca E-mail Work Livros Peças Episódios Artigos Ideias Notas Média Rádio English