Terça-feira, 15 de Dezembro de 2009

Fiquei a saber, na entrevista dada pela nova Ministra da Cultura à revista Visão, que o Museu de Arte Popular vai avançar já este ano e que a Ministra espera inaugurá-lo em 2010, “tal como foi concebido e no espaço onde estava”. Fiquei a saber também que, em relação ao Museu da Língua: “Haverá um museu, de preferência situado num local emblemático para a portugalidade” e que: “A expansão portuguesa e a língua portuguesa serão um projecto comum”.
Primeira declaração de interesses: estive envolvido no projecto do anterior Museu da Língua. Segunda declaração de interesses: sou amigo do anterior Ministro da Cultura.
Como se imagina, tive com ele uma série de conversas pessoais sobre muitos temas, incluindo a cultura (conversas que poderão ter sido até, quem sabe, escutadas). Mas, em ano e meio, só por duas vezes participei, a título profissional e nunca remunerado, em iniciativas do Ministério da Cultura, e por convite deste. (Com grande probabilidade menos do que se não conhecesse o Ministro). Uma foi uma participação num debate e outra foi o convite para participar, a título individual, num grupo de trabalho sobre um projecto para o Museu da Língua. Aceitei, com muito prazer, porque o projecto e a equipa eram estimulantes. Tratava-se de fazer um museu que não se esgotasse na lógica expositiva de uma história da Língua, ligada à expansão portuguesa, que era o projecto da anterior Ministra, Isabel Pires de Lima, mas que celebrasse também a Língua nas suas múltiplas realizações presentes. O grupo era dirigido pelo António Câmara, da Ydreams, e incluía arquitectos e artistas visuais. O projecto foi pensado para o edifício do antigo Museu de Arte Popular, por sua vez antigo pavilhão da Exposição do Mundo Português. Podia ter sido pensado para outro sítio? Claro, por exemplo para o inacreditavelmente abandonado Pavilhão de Portugal. Ou para outro sítio, embora não qualquer. Foi pensado para ali porque o dito Museu de Arte Popular passaria a integrar o Museu de Etnologia. E porque havia a oportunidade de fazer agora um Museu da Língua naquele sítio privilegiado, frente ao rio, em Belém, com espaço para autocarros das escolas e dos turistas e com condições para um anfiteatro para espectáculos, livraria e esplanada. Havia condições para o fazer e inaugurar em 2010. Não só condições financeiras mas de articulação de parcerias, nomeadamente com o Museu da Língua de S. Paulo, Brasil.
Percebo agora que fica adiado o Museu da Língua e avança o Museu de Arte Popular. Ou mais exactamente o Museu que celebra o fake popular inventado por António Ferro para a exposição dos anos 40. Pode ter a graça do kitsch e pode inclusivamente ser uma versão revista e actualizada que contextualize o lado feira do artesanato. Mas parece-me que um Museu da Língua seria sempre um museu mais prioritário e estratégico. E um museu que seja da Língua e não um híbrido da Língua e da expansão portuguesa. E acreditem que não falo em interesse próprio. E, já agora, ao contrário do que foi dito, e publicado no jornal Sol, as Produções Fictícias nunca estiveram envolvidas no projecto do museu. Nem nunca demos por que houvesse uma “contestação generalizada por parte dos meios culturais da capital” ao dito museu. O que houve foi, como sempre, falta de debate público, manipulação de informação e mau jornalismo. Talvez um dia se faça um museu sobre isso.
 

Crónica publicada no Económico no dia 12 de Dezembro de 2009.



Nuno Artur Silva às 16:03 | link do post

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