Terça-feira, 22 de Dezembro de 2009

“O optimista pensa que vivemos no melhor de todos os mundos possíveis. O pessimista receia que isso seja verdade”. A frase é de Robert Oppenheimer, considerado “o pai da bomba atómica”. Seria ele um optimista ou um pessimista? A verdade é que inventou uma bomba que pode acabar com qualquer mundo, o melhor e o pior. A realidade muda. Às vezes estrondosamente.

Nesta época natalícia ocorre-me falar dessa antítese de Pai Natal que é o Profeta da Desgraça. Tal como os Pais Natal nos centros comerciais, com a crise, têm-se multiplicado os Profetas da Desgraça nos canais informativos. Há-os em versão light , mas os que se destacam são os do género apocalíptico. De entre estes, Vasco Pulido Valente e, sobretudo, Medina Carreira.
Para Pulido Valente a explicação de tudo em Portugal está no século XIX e no início do século XX. Tudo o que acontece hoje, cem anos depois, explica-se à luz dessa época e de acordo com a evidência de que os portugueses são muito estúpidos. É verdade que o Eça e o Camilo são mais actuais do que gostaríamos, mas é divertido verificar a quantidade de vezes que Pulido Valente se enganou nas suas previsões. Medina Carreira reduz tudo à questão financeira e ao facto de estarmos a perder não sei quantos milhões por dia e caminharmos irreversivelmente para a banca muito rota por causa da total incompetência do pessoal político. E, tal como Pulido Valente, não só não deixa de ter uma certa razão como, pela certa, lhe está a faltar uma outra razão essencial.  
No âmbito da Física, a experiência do gato de Schrodinger mostrava, não só como a realidade é complexa como, simplificando, que é impossível observá-la sem nela interferir.
O que se vê depende sempre de quem vê e donde se vê. E da fé. É a velha questão do copo meio cheio ou meio vazio. E de quem o feio ama bonito lhe parece. Ou na versão pessimista: quem o bonito detesta, feio lhe parece.
Nas comédias televisivas utilizavam-se risos gravados para condicionar a recepção do espectador. Experimentem ver um programa de humor com uma plateia predisposta a gostar do comediante e depois ver o mesmo programa num grupo que à partida não acha graça nenhuma ao mesmo comediante. É como ver dois programas diferentes. A expressão “estado de graça” aplica-se aqui na perfeição.
No palco do nosso Portugal bipolar têm contracenado Cândidos e Velhos do Restelo para todos os gostos, com melhores ou piores audiências. O que têm faltado são fazedores. Daqueles que fazem realmente a diferença.
 Um dos que fizeram realmente a diferença, talvez o que fez mais a diferença em Portugal, nos últimos cem anos, Mário Soares, editou agora um ensaio dedicado aos jovens intitulado “Elogio da Política” onde lembra que a política é uma actividade nobre. É o momento certo para o lembrar e Soares tem a autoridade para o fazer. É um optimista com 85 anos. Sempre foi. E o seu optimismo fez mudar o país.
O meu filme favorito sobre a vida de Cristo chama-se “A Vida de Brian”, dos Monty Python. O filme termina com os crucificados a cantarem “Always look on the bright side of life”. Parecendo que não, é um belo e sábio mandamento. E pode-se assobiar.
 
Crónica publicada no Económico no dia 19 de Dezembro de 2009.


Nuno Artur Silva às 09:40 | link do post

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