Terça-feira, 29 de Dezembro de 2009

2009 foi um mau ano para a televisão portuguesa. A decadência dos canais generalistas é uma evidência nos números das audiências e, sobretudo, na programação. O aumento da notoriedade e da audiência do cabo, seguramente maior do que indicam os insuficientes sistemas de medição, não é, aparentemente, acompanhado pela capacidade financeira dos seus canais portugueses para criarem conteúdos próprios.
Este foi o ano em que se discutiu a viabilidade de um quinto canal generalista, num contexto em que essa discussão se tornava de dia para dia mais obsoleta. Os projectos do quinto canal foram chumbados pela entidade reguladora, que decidiu aquilo que devia ser o mercado a decidir.
O proteccionismo aos grupos existentes impediu a tentativa de criar diversidade e não gerou qualidade na oferta televisiva. Um novo projecto poderia ter aberto novas possibilidades. Se se viesse a verificar dificuldades nos grupos de comunicação caberia a estes encontrar soluções que poderiam passar por parcerias, como aliás aconteceu recentemente em Espanha.
Por outro lado, assistimos ao lançamento de mais um canal de informação no cabo, ficando Portugal com três canais informativos ( para não falar do futuro canal do grupo Económico).
Falando dos três grandes grupos de televisão: a TVI continua líder nos ditos generalistas mas o seu modelo de programação não se renova, está estagnado. Por outro lado, a TVI 24 não trouxe nem inovação nem audiências.
A SIC continua à procura de uma nova identidade. Mais bem posicionada no cabo do que no generalista, sobretudo por causa da SIC Notícias, a estação tarda em encontrar um novo caminho. A SIC Mulher, embora com um perfil definido, continua aquém do seu potencial; a SIC Radical perdeu claramente élan; e no fim do ano foi lançada a SIC K, praticamente sem conteúdos nacionais, o que é , no mínimo, precipitado.
A RTP não parece alterar uma vírgula à sua estratégia de sempre: aposta quase exclusiva na RTP 1 como canal generalista popular em que a marca de serviço público nem sempre é evidente, a não ser na relativa diversidade de formatos em antena e no investimento, ainda que tímido, noutros tipos de ficção portuguesa que não a telenovela.
A RTP 2 é uma manta de retalhos incoerente. A RTP Internacional continua a ser um vazadouro sem orçamento e sem projecto próprio. A RTPN melhorou, ainda que seja discutível o seu conceito.
Se havia um projecto que fazia sentido no contexto da RTP era a criação de um canal/portal para crianças. Mais uma vez a RTP deixou-se antecipar.
No meio da crise, uma evidência: mais do que nunca, o Estado tem de apoiar a produção audiovisual em Língua Portuguesa. E este apoio não se pode esgotar no subsídio aos filmes portugueses escolhidos por um júri arbitrário, tem de ser pensado estrategicamente num quadro mais amplo. E, desde logo, no contexto dos canais de televisão, existentes e a existir.
Aliás, mais do que um ou outro canal, e independentemente da tão discutida, embora de forma quase sempre redutora, questão do controlo da informação, o grande impasse de 2009 e a grande incógnita para 2010 é a reorganização dos grupos de comunicação portugueses no novo contexto de multiplicação digital.
A grande questão das televisões - das marcas de média em geral- é: qual o modelo de negócio? Temos o futuro próximo para o descobrir. 

 

Crónica publicada no Económico, no dia 26 de Dezembro de 2009.



Nuno Artur Silva às 11:25 | link do post

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