Quarta-feira, 30 de Dezembro de 2009

A fechar o ano, e ainda a propósito da edição especial da caixa com a trilogia Filipe Seems + DVD, aqui deixo duas notas.

Primeiro, o texto que escrevi para a edição de 11 de Novembro da revista Time Out, sobre a Lisboa de Seems, acompanhado pelos desenhos da série do António Jorge Gonçalves.

Depois junto a sequência de imagens que fizemos para as apresentações nas FNACs, que usámos como suporte para contar a história da nossa dupla criativa.

 

A Lisboa de Seems

 

No início dos anos 90 o António Jorge Gonçalves fazia banda desenhada e começou a fazer desenhos de Lisboa. O jornal SE7E convidou-o para publicar, primeiro, uma pequena história, e depois uma página todas as semanas. O Jorge desafiou-me a escrever o argumento. Foi quando decidimos criar um “herói”. O ponto de partida era uma versão irónica das bandas desenhadas clássicas e do imaginário dos detectives. A diferença era que tudo se passaria em Lisboa, num futuro mítico de Lisboa onde se misturam as Lisboas de todos os tempos, reais e imaginados.

Para encontrar os locais das cenas das Aventuras de Seems, o António Jorge e eu começámos a percorrer Lisboa de lés a lés, tomando notas e tirando fotografias, fazendo como no cinema, múltiplas reperages. A diferença é que não tínhamos um guião fechado. Tínhamos o argumento esboçado mas a cena só era escrita depois de decidir o local.
O que é maravilhoso na banda desenhada é que podemos passar da imaginação para a concretização no desenho sem nos preocuparmos com autorizações, efeitos especiais, orçamentos ou, pura e simplesmente, com as leis da física e da lógica do universo.

 

1 – Filipe tem um amigo cientista, Eugénio, um afro-português, negro, casado com Jane, uma astronauta loira, e com um rasto de filhos, todos com nomes de cientistas famosos. Eugénio é um génio bonacheirão. Na primeira história, “Ana”, Filipe contacta-o e Eugénio, sempre repetindo a sua expressão favorita - “é curiosíssimo” – sugere a hipótese da clonagem. A cena passa-se no laboratório de Eugénio, que decidimos situar numa versão do Instituto Superior Técnico com observatório astronómico, numa Alameda povoada de esculturas pop, com a Almirante Reis transformada num corredor para bicicletas.

 

 

2 – O mistério adensa-se quando surge uma terceira gémea. A cena passa-se num “espectáculo de moda”, misto de desfile e número de trapezistas, que tem lugar num gigantesco bar que não é senão a Basílica da Estrela. O espectáculo chama-se “Estrela da noite de todas as cores”, que era um verso do poeta surrealista português precocemente desaparecido António Maria Lisboa. Sempre nos agradou a ideia de ocupar os espaços das religiões institucionais para actividades hedonistas.

 

 

3 – Na minha infância e juventude morei em Campolide e, ao virar da esquina da minha rua, tinha uma vista sobre o vale de Alcântara, dominado pelo aqueduto das Águas Livres. Por baixo do aqueduto passavam, e passam, auto-estradas e o caminho de ferro. Mas antes disso, há mais de cem anos, o vale era um lugar bucólico e campestre, com um ribeiro a passar debaixo do aqueduto, como ilustram as gravuras da época. Na segunda aventura de Filipe Seems recuperámos esse vale e pusémos Filipe a pedalar uma bicicleta aquática para chegar ao aqueduto, subir umas escadas no arco principal, encontrar-se com Ana para um café lá em cima e depois abandonarem o local de balão, em direcção ao mar.

 

  

 

4 – Os eléctricos são as personagens mais características de Lisboa, fazem parte da sua fauna. N’“A História do Tesouro Perdido” Filipe procura um deles, num sítio que sempre nos pareceu cinematográfico: a estação de eléctricos do Calvário. Se na Lisboa real existe o 28 que liga os Prazeres à Graça, e mais do que uma linha é uma metáfora e uma filosofia de vida, na Lisboa de Seems os eléctricos deslizam sobre a cidade, suspensos, e um deles irregular e erradio, tem como destino o “desejo”.

 

5 – À procura do tesouro perdido, Filipe encontra-se novamente com Eugénio, numa visita ao Oceanário, com a família, onde acabaram de falar com os golfinhos. O Oceanário é, no universo Seems, um projecto utópico de um amigo nosso arquitecto, Rui Horta Santos, e consiste numa gigantesca onda em espiral no meio do Tejo.

 

 

6 – A mais emblemática imagem da série do Filipe Seems é a sequência da baixa veneziana. Sabendo dos afluentes do Tejo, que passam por baixo da Baixa, imaginámos uma Lisboa inundada, como Veneza, onde o barulho e a poluição dos automóveis fossem substituídos pelo deslizar misterioso das gôndolas e dos seus gondoleiros errantes e, na nossa versão, cegos. O grande lago do Terreiro do Paço é directamente inspirado num dos nossos autores de BD favoritos, Fred, e na sua série Philémon, e é o palco para um concerto que os espectadores ouvem por auscultadores nas suas cadeiras flutuantes.

 

 

7 - Logo no início da primeira história Filipe Seems está sentado num escritório de detective particular. Mais à frente percebemos que o escritório é uma divisão da sua casa e a fachada de detective é uma auto-ironia literária. Filipe é de facto um escritor ou “programador de histórias de vídeo-bd”. Um detective muito particular, mais seduzido pelas pistas do que pelas provas. E imaginámos como único companheiro de Filipe o gato Schro, abreviatura de Schrodinger (um físico que ficou famoso por causa da experiência que fez com um gato). Um dos hábitos de Seems era vaguear com Schro pelos telhados da sua casa na costa do Castelo. No final do “Ana” decidimos que ela ficava com ele, o que só é revelado no último quadradinho, e pensámos que a melhor maneira de visualizar essa utopia de final feliz era com a visão de uma Lisboa coberta por um manto branco de neve.

 

 

8 - Se “A História do Tesouro Perdido” era uma história solar, luminosa, com cenas marítimas, um percurso de aventura, de um sítio para outro à procura de um tesouro sempre nunca perdido, “A Tribo dos Sonhos Cruzados”, quase dez anos depois, era uma
história nocturna, subterrânea, densa, passada nas catacumbas de Lisboa e com Filipe Seems perdido e perturbado nos seus sonhos e fantasmas interiores. A única imagem luminosa desta terceira história é esta quando, depois de percorrer os túneis do metro e o acampamento cigano subterrâneo, seguindo a borboleta, Filipe desemboca numa fenda da fachada dos Jerónimos e sai para uma Belém inesperadamente transformada em praia tropical.
 

 

9 – Esta é uma versão negra do primeiro projecto de fachada do Cinema Éden original, tal como foi imaginado por Cassiano Branco. Não seria aprovado, acabando por ficar o outro, entretanto destruído. É neste Éden que se reúne a seita da conspiração, um grupo de cegos perante um écrã branco. Já na primeira história tínhamos utilizado um projecto nunca concretizado de Cassiano Branco, nesse caso um plano de urbanização da Costa da Caparica nos anos 30. Na primeira história é o sítio que Filipe sobrevoa de asa delta e onde acaba por pousar, antes de perder a moto voadora que perseguia.

 

 

Filipe Seems e outras histórias - percurso de uma parceria

 

 

 


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Nuno Artur Silva às 19:30 | link do post

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